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Fashion in the bag

Fashion in the bag

10
Out17

Saí...

fashion

 

 

Saí do comboio,

Saí do comboio,

Disse adeus ao companheiro de viagem

Tínhamos estado dezoito horas juntos..

A conversa agradável

A fraternidade da viagem.

Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.

Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...

Toda despedida é uma morte...

Sim toda despedida é uma morte.

Nós no comboio a que chamamos a vida

Somos todos casuais uns para os outros,

E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

 

Tudo que é humano me comove porque sou homem.

Tudo me comove porque tenho,

Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,

Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

 

A criada que saiu com pena

A chorar de saudade

Da casa onde a não tratavam muito bem...

 

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.

Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

 

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

 

4-7-1934

Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

 
02
Out17

Uma madrugada forçada...

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(imagem retirada da net)

 

 

Nada se ouve. Lá fora a cidade vive entorpecida pela noite que a envolve, fazendo crer que a madrugada tarda em chegar. Ele gostava destas horas em que o silêncio o rodeava. Podia pensar, sobretudo podia ser ele sem se preocupar sem mais nada. Sentou-se na mesa que estava em frente à janela e acendeu o candeeiro que estava em cima dela.

A sala encheu-se de uma luz amarelada e doentia que contrastava com a pouca luz que a rua oferecia. Tirou uma folha da gaveta e escreveu duas ou três linhas, sem nexo, mas que ele sentiu necessidade de colocar no papel. Acendeu um cigarro e o fumo fé-lo semicerrar os olhos. Na sala havia, agora, uma névoa de fumo, um silêncio perturbado e uma madrugada forçada.

No entanto, naquele espaço estava alguém que aproveitava a noite, o tempo em que os outros não estavam para ser quem, de facto era.

Leu duas páginas de um romance inglês e sorriu. Gostava de ler romances porque se divertia sempre. O culto de uma vida perfeita e rósea... Suspirou, não tinha sono e o dia estava, para ele, no auge. Voltou a escrever desta vez com mais convicção e com demora. Quem o visse teria a impressão de que papel e homem se tinham fundido e que agora eram apenas um. As palavras devoravam-no ou faziam-no nascer...

 

 

11
Set17

O seu eu que era tão seu

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 (imagem retirada da net)

 

Ficou encostada à parede da sala, com a face colada no vidro. Gostava daquela sensação de frio sobre a pele. Do outro lado ouvia as palavras dele. Queria apenas um abraço, pensava. Não sabia já o que ele dizia, perdeu-se naquele complexo fio de palavras. Ela estava longe ou perto? Se alguém a visse não saberia dizer. O olhar perdido no que estava para além do vidro, o silêncio da escuta das palavras dos outros e ela não estava lá.

Onde ela estava não entrava ninguém, há muito que o tinha decidido. Lá não existiam julgamentos e nem culpas. Permitia-se ser quem quisesse. Passeava por entre as flores e sentia as agulhas dos pinheiros a picar-lhe a pele, não se importava. Ali sorria e cantava, sim ela cantava. Ás vezes canções simples com letras infantis, outras pequenos trechos de complexas sonatas. Fugia sempre, melhor o seu pensamento fugia, de cada vez que tinha de sair daquele seu eu, que era tão seu. As palavras voltaram, tirou a face do vidro, estava de volta.

07
Set17

As palavras por vezes têm de sair...

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As palavras evadiam-lhe a boca como um torrente de água que nenhum dique consegue travar. Por mais que tentasse elas tinham vontade própria e eram resultado de um longo envenenamento interior. Ele olhava-a e respondia sem saber bem como, mas nada a travava. Os olhos brilhavam-lhe de raiva, o tormento que passara durante os últimos anos tinha sido transformado em sons e palavras e agora, nada os podia travar. Não sabia para onde ir, mas sabia que não podia mais ficar calada. Era impossível faze-lo  e continuar ressentida. Não sabia o que a esperava a partir dali, não previa nada de fácil, nem de bom, mas calar o sentia era fazer com que se mantivesse cativa e disposta a que continuassem a servir-se dela.

Os interesses sobrepõem-se muitas vezes aos sentimentos. Os interesses aguçam quase sempre os egoísmos e o que há de pior em nós, pensou. Há uma corrida desenfreada, para conseguir mais, para ser melhor e para isso não interessa que os outros se magoem ou sejam suprimidos. Interessa servir-se e descartar.

Finalmente as palavras começaram a faltar-lhe, assim como lhe faltaram, também, as lágrimas. Sentia-se livre, ao mesmo tempo culpada por ter dito tudo. Durante toda a vida, sempre se sentira culpada. Todos sabiam disso e faze-la sentir ainda mais era o seu maior trunfo. As palavras acabaram e deixaram instalar-se o silêncio...

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