Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fashion in the bag

Fashion in the bag

18
Dez17

Realidades diferentes

fashion

 

Sentou-se com o mar de frente, como se estivesse perante uma pintura de um qualquer pintor impressionista. Admirou-se perante a calmaria das ondas e aconchegou o lenço ao pescoço. No rosto desenhava-se,por vezes um leve sorriso que rapidamente se desvanecia e dava lugar a um semblante carregado e preocupado. Lembrava-se das últimas palavras que ouvira, o som trespassava-a e encontrava-a sempre que ela se tentava refugir em outras regiões do seu pensamento. Sempre fora assim, perseguida por sons, fugindo no eterno labirinto de si mesma. Adorava esconder-se e ria muitas vezes por pensar que só ela conhecia aqueles lugares. Muitas vezes era um espécie de triunfo, outras apenas uma forma de se proteger. O que é certo é que talvez ninguém fosse suficientemente forte para resistir a labirintos ou suficientemente curioso para os querer percorrer.

Uma brisa bateu-lhe no o rosto  devagar e trouxe-lhe de volta o som, as palavras que se materializavam e a chamavam de louca. Ajeitou-se na pedra onde estava com as pedras cruzadas e murmurou: - não sou louca, mas a minha realidade é diferente da tua.

14
Dez17

Sem medo do tempo

fashion

Esqueceu o relógio no bolso. Prometeu a si que não iria mais olhar para ele, enquanto durasse o dia. No bolso ficaria preso o carrasco pronto a decepar a vida, com os minutos e os segundos que não se coibiam de passar.

Riu alto, satisfeita pela sua vitória contra o relógio. Percebeu que a sua felicidade não duraria muito porque o tempo continuava a passar independentemente do preso que jazia no fundo do bolso.

Pensou nos Verões passados, nos Invernos ainda vivos dentro de si, mas desejou sobretudo as Primaveras por vir.

Pegou numa pequena pedra que atirou distraidamente contra as paredes de um um pequeno jardim onde os jacintos repousavam adormecidos. Continuou a caminhar por entre carvalhos amarelecidos e suspirantes de verdura ao mesmo tempo que olhava para as mãos lívidas e delicadas. O tempo, esse continuou a passar e a cada minuto contava, apenas, o que se fazia com ele. Apeteceu-lhe correr, abraçar o ar que não via, agradecer as cores, os cheiros, mas refreou-se por achar que o segundo em que o fizesse teria passado logo a seguir e ela ficaria sem nada, de novo. Por fim percebeu, depois de muito caminhar, que o tempo seria preenchido pelos pequenos instantes que iriam passando e que dependia dela e do que estava dentro dela mantê-los, ou não. Meteu a mão no bolso, tirou o relógio e deixou-o estendido algum tempo sobre a mão. Devagarinho colocou-o no pulso e olhou para ele durante vários momentos do dia, sem pressa e sem medo dos segundos que passavam e em que ela vivia.

04
Dez17

Nunca sei o que quero...

fashion

(imagem retirada da net)

 

Nunca sei o que quero: murmurou entre o chá fumegante que agora levava aos lábios. Tinha cinquenta anos, talvez menos. O rosto era lívido e tinha poucas rugas, mas o olhar grande denotava uma tristeza e uma idade que era superior à sua face, muito superior. Olhou-a enquanto pode e tentou não sentir nada. Apenas curiosidade, justificou-se. Viu-lhe batom entre os dentes e o esboço de um leve sorriso entre os lábios quando o empregado trouxe a conta. Olhou-lhe para as pernas brancas, bonitas, esguias enfeitadas por uns sapatos azuis com flores. Viu-lhe o cabelo cheio de brilho, transpirando maciez e nunca a olhou como um todo. Quis saborear-lhe os pormenores, descobrir-lhe recantos, namora-la sem ela saber. Antever-lhe a respiração e adivinhar-lhe o perfume. Quis tanto de uma pessoa que não conhecia, tão depressa como se quer de uma obra de arte imortalizada, mas com um mundo a descobrir. Quis tudo dela, ainda que não imaginasse tudo o que ela era.

Indiferente a essa contemplação ela lia o jornal com a chávena na mão e ia murmurando várias palavras, que ele nunca ouvia. Não eram as palavras que lhe interessavam, era ela toda, era o seu mundo.

Ela arrumou o jornal em cima da mesa e levantou-se. Ele atrapalhou-se, levantou-se e sentou-se, atirou com a cadeira para o chão agarrando-lhe  a mão quando ela passou. Eu sempre sei o que quero: disse-lhe vendo-a pela primeira vez como um todo.

13
Nov17

Apenas merecia mais....

fashion

(imagem retirada da net)

 

Abriu cuidadosamente a gaveta dos vestidos e escolheu  um vestido preto, simples e assimétrico.

Esticou-o em cima da cama e alisou-o. Sentou-se perto do vestido como se ele tivesse vida e descobriu nele um olhar distante e interessado. Deixou-se ficar a olhar a sua imagem reflectida no espelho. Estava pálida e com aspecto cansado. Passou uma escova larga pelo cabelo, uma e outra vez até que sentiu que estava arrumado e no sítio. O rímel e um pequeno lápis preto abriram-lhe mais o olhar. Puxou o vestido e sentiu-o na pele. Estava pronta. Saiu para a rua e o som dos passos, estridente por causa dos saltos, contrastava com o bater do coração que como sempre dançava com a melodia da imagem de noites e dias perfeitos.

Por muito que os anos passassem e as desilusões se manifestassem ela continuava a viver com uma cabeça de adolescente e nem as dores a refreavam. Pensava sempre na perfeição dos momentos. Uma perfeição que nem ela sabia em que consistia, sonhava-a, apenas.

Ele esperava-a. Como sempre a tempo. Admirava-o pelo corpo alto e esguio, mas sobretudo pela solidez que demonstrava. Dir-se-ia que era um muro que a pouco e pouco se foi construindo de forma a ficar resistente ao mais poderoso furacão. Gostava da sua forma descontraída, mas coerente e consistente.

Conheciam-se há anos e os anos em que não se viram apenas acentuaram a admiração que nutria por ele.

Lembrava-se das horas em que falava com ele e em que pacientemente a ouvia e no fim pragmaticamente lhe solucionava, em poucas palavras, o emaranhado de ideias e de problemas que ela era perita em construir. Ele ouvia-a e isso era, de tudo, o que mais fazia vibrar. Era raro sentir que alguém se interessava genuinamente por ela. Era bom sentir que era admirada fisicamente, mas o que a fazia pular era sentir que alguém lhe admirava a alma e que gastava tempo a ouvi-la e a descobri-la. A noite magicamente discorria e aos poucos ela apercebeu-se que algumas coisas tinham mudado. Ele estava cansado, já não tinha paciência para ouvi-la e a atenção que lhe dedicava era agora mais centrada nele. Ao mesmo tempo que pensava em si, reflectia no que ele teria passado ao longo deste tempo, que o fizera voltar-se tanto para si. Uma espécie de defesa, talvez. Sentiu-o egocêntrico, e a sua atenção era dividida com outras coisas que não existiam antes ou que ela não vira.

Acima de tudo percebera que era ela que estava mudada e que tinha descoberto em si a força para saber que merecia muito mais. Não era melhor, apenas merecia mais.

Mais Sobre Mim

A Ler

Palavra da Semana

Sofrósina

Segue-me

Follow

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

blogs portugal

Este blogue tem direitos de autor Copyrighted.com Registered & Protected

A ler 2