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Fashion in the bag

Fashion in the bag

23
Out17

Asas suplentes

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(imagemretirada da net)

 

 

Esperei pacientemente até que a casca se assemelhou a um conjunto de teias de aranha. Um rasgão aqui, uma rachadura acolá. Comecei a ver uma penugem amarela. Primeiro apenas num minúsculo buraquinho e depois, mais e mais, até distinguir uma cabecinha e um lindo bico alaranjado. Era um pequeno ser com lindas asas. Podia voar, cruzar os céus e fazer as mais elegantes piruetas. Foi isso que lhe desejei, foi assim que o vi.

O tempo passou e os voos iniciais começaram por ser logos, mas paulatinamente encurtaram de distância. Todos os dias alguém lhe cortava um pedaço de asa. Tentava voar e caia. Um dia desistiu de voar e foi infeliz.

Voltei a vê-lo encolhido debaixo de uma casca. Desta vez não via teias de aranha e a casca estava muito dura. Tive de lhe ensinar que todos temos um par de asas suplentes. Essas asas ninguém vê e nem corta. Somos os seus únicos senhores e percorrer os céus ou caminhar nas montanhas depende apenas de nós. Ele percebeu e escancarou, uma vez mais, a sua cortina. Voava de novo, ou começava a voar.

 

 

10
Out17

Saí...

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Saí do comboio,

Saí do comboio,

Disse adeus ao companheiro de viagem

Tínhamos estado dezoito horas juntos..

A conversa agradável

A fraternidade da viagem.

Tive pena de sair do comboio, de o deixar.

Amigo casual cujo nome nunca soube.

Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...

Toda despedida é uma morte...

Sim toda despedida é uma morte.

Nós no comboio a que chamamos a vida

Somos todos casuais uns para os outros,

E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

 

Tudo que é humano me comove porque sou homem.

Tudo me comove porque tenho,

Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,

Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

 

A criada que saiu com pena

A chorar de saudade

Da casa onde a não tratavam muito bem...

 

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.

Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

 

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

 

4-7-1934

Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.

 
02
Out17

Uma madrugada forçada...

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(imagem retirada da net)

 

 

Nada se ouve. Lá fora a cidade vive entorpecida pela noite que a envolve, fazendo crer que a madrugada tarda em chegar. Ele gostava destas horas em que o silêncio o rodeava. Podia pensar, sobretudo podia ser ele sem se preocupar sem mais nada. Sentou-se na mesa que estava em frente à janela e acendeu o candeeiro que estava em cima dela.

A sala encheu-se de uma luz amarelada e doentia que contrastava com a pouca luz que a rua oferecia. Tirou uma folha da gaveta e escreveu duas ou três linhas, sem nexo, mas que ele sentiu necessidade de colocar no papel. Acendeu um cigarro e o fumo fé-lo semicerrar os olhos. Na sala havia, agora, uma névoa de fumo, um silêncio perturbado e uma madrugada forçada.

No entanto, naquele espaço estava alguém que aproveitava a noite, o tempo em que os outros não estavam para ser quem, de facto eram.

Leu duas páginas de um romance inglês e sorriu. Gostava de ler romances porque se divertia sempre. O culto de uma vida perfeita e rósea... Suspirou, não tinha sono e o dia estava, para ele, no auge. Voltou a escrever, desta vez com mais convicção e com demora. Quem o visse teria a impressão de que papel e homem se tinham fundido e que agora eram apenas um. As palavras devoravam-no ou faziam-no nascer...

 

 

11
Set17

O seu eu que era tão seu

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 (imagem retirada da net)

 

Ficou encostada à parede da sala, com a face colada no vidro. Gostava daquela sensação de frio sobre a pele. Do outro lado ouvia as palavras dele. Queria apenas um abraço, pensava. Não sabia já o que ele dizia, perdeu-se naquele complexo fio de palavras. Ela estava longe ou perto? Se alguém a visse não saberia dizer. O olhar perdido no que estava para além do vidro, o silêncio da escuta das palavras dos outros e ela não estava lá.

Onde ela estava não entrava ninguém, há muito que o tinha decidido. Lá não existiam julgamentos e nem culpas. Permitia-se ser quem quisesse. Passeava por entre as flores e sentia as agulhas dos pinheiros a picar-lhe a pele, não se importava. Ali sorria e cantava, sim ela cantava. Ás vezes canções simples com letras infantis, outras pequenos trechos de complexas sonatas. Fugia sempre, melhor o seu pensamento fugia, de cada vez que tinha de sair daquele seu eu, que era tão seu. As palavras voltaram, tirou a face do vidro, estava de volta.

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