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Fashion in the bag

Fashion in the bag

24
Ago16

Carta ao AVC

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 Caro Avc:

Escrevo-te hoje porque há, mais ou menos, um ano que te conheci. Não fui eu que te vi, mas pedi muitas vezes para que fosse. Seria mais fácil para mim ser eu a encontrar-te e muito mais suportável, se tivesse sido o meu corpo a sentir-te .

Mas o meu conhecimento de ti, veio através da minha mãe. A pessoa mais preocupada e terna que conheço. A pessoa que menos merecia encontrar-te, viu-te de uma forma cruel e desumana.  Quanto a mim, conheci-te da pior maneira. Não marcamos encontro, palavras não houve, nem sequer dei o meu consentimento para que viesses. Apareceste sorrateiramente, como um cobarde, atiraste a minha mãe para o chão e roubaste-nos, a mim e a ela, tantas coisas que é impossível, descreve-las.

Nesse encontro disseste-me, mas eu não ouvi, que o meu papel de filha tinha acabado, que deixaria de ter alguém que me protegia, mas que passaria eu a proteger e a cuidar. Deixei de saber o que era dormir descansada. Eu, que mal sabia cozer um ovo, descobri-me a ler tudo sobre o que era cozinha saudável e alimentos que fizessem bem ao cérebro. Ouvi várias vezes a pergunta se trabalhava na área da saúde porque, às tantas, até os termos médicos da doença e especificidades eu sabia.

Deixei de ter tempo para os amigos e aí descobri que os verdadeiros eram poucos. A brincadeira tinha acabado, e quando as coisas se tornam duras e difíceis poucos são os que se mantêm.  Fizeste-me repensar na minha vida, pensar que o trabalho(onde eu dava tudo de mim) era tão insignificante comparado com o que estava a viver que tinha de ser reduzido.

Há um ano ouvi que nunca mais iria ver a minha mãe a andar e muito menos ve-la atarefada, nas suas coisas. Que não iria mais ajudar os filhos, nem preocupar-se se tinham comido, ou não, se estavam cansados ou tristes.

Mas sabes descobri outras coisas também, que te agradeço. Sou melhor filha, melhor pessoa e apesar de muito dura, esta caminhada, estou cá, ela também, e estamos juntas.

As suas pernas estão cada vez mais fortes, querem é mexer-se e a mão... a mão fez-me hoje, pela primeira vez, a festa mais suave que já alguma vez senti. 

Queria só dizer-te que não considero a tua visita uma derrota e não acho que venceste! Não tenho uma mãe igual ao que tinha, mas ela cá continua a resmungar e a refilar e, sobretudo, a Amar. A minha vida está diferente, mas talvez eu precisasse dessa diferença.

Não posso dizer que foi um prazer conhecer-te, mas aceito esse encontro( mantém-te bem longe,de qualquer forma)!

 

Agradeço, sinceramente, que não voltes mais.

Adeus e até nunca!

 

 

 

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