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Fashion in the bag

Fashion in the bag

04
Dez17

Nunca sei o que quero...

fashion

(imagem retirada da net)

 

Nunca sei o que quero: murmurou entre o chá fumegante que agora levava aos lábios. Tinha cinquenta anos, talvez menos. O rosto era lívido e tinha poucas rugas, mas o olhar grande denotava uma tristeza e uma idade que era superior à sua face, muito superior. Olhou-a enquanto pode e tentou não sentir nada. Apenas curiosidade, justificou-se. Viu-lhe batom entre os dentes e o esboço de um leve sorriso entre os lábios quando o empregado trouxe a conta. Olhou-lhe para as pernas brancas, bonitas, esguias enfeitadas por uns sapatos azuis com flores. Viu-lhe o cabelo cheio de brilho, transpirando maciez e nunca a olhou como um todo. Quis saborear-lhe os pormenores, descobrir-lhe recantos, namora-la sem ela saber. Antever-lhe a respiração e adivinhar-lhe o perfume. Quis tanto de uma pessoa que não conhecia, tão depressa como se quer de uma obra de arte imortalizada, mas com um mundo a descobrir. Quis tudo dela, ainda que não imaginasse tudo o que ela era.

Indiferente a essa contemplação ela lia o jornal com a chávena na mão e ia murmurando várias palavras, que ele nunca ouvia. Não eram as palavras que lhe interessavam, era ela toda, era o seu mundo.

Ela arrumou o jornal em cima da mesa e levantou-se. Ele atrapalhou-se, levantou-se e sentou-se, atirou com a cadeira para o chão agarrando-lhe  a mão quando ela passou. Eu sempre sei o que quero: disse-lhe vendo-a pela primeira vez como um todo.

13
Nov17

Apenas merecia mais....

fashion

(imagem retirada da net)

 

Abriu cuidadosamente a gaveta dos vestidos e escolheu  um vestido preto, simples e assimétrico.

Esticou-o em cima da cama e alisou-o. Sentou-se perto do vestido como se ele tivesse vida e descobriu nele um olhar distante e interessado. Deixou-se ficar a olhar a sua imagem reflectida no espelho. Estava pálida e com aspecto cansado. Passou uma escova larga pelo cabelo, uma e outra vez até que sentiu que estava arrumado e no sítio. O rímel e um pequeno lápis preto abriram-lhe mais o olhar. Puxou o vestido e sentiu-o na pele. Estava pronta. Saiu para a rua e o som dos passos, estridente por causa dos saltos, contrastava com o bater do coração que como sempre dançava com a melodia da imagem de noites e dias perfeitos.

Por muito que os anos passassem e as desilusões se manifestassem ela continuava a viver com uma cabeça de adolescente e nem as dores a refreavam. Pensava sempre na perfeição dos momentos. Uma perfeição que nem ela sabia em que consistia, sonhava-a, apenas.

Ele esperava-a. Como sempre a tempo. Admirava-o pelo corpo alto e esguio, mas sobretudo pela solidez que demonstrava. Dir-se-ia que era um muro que a pouco e pouco se foi construindo de forma a ficar resistente ao mais poderoso furacão. Gostava da sua forma descontraída, mas coerente e consistente.

Conheciam-se há anos e os anos em que não se viram apenas acentuaram a admiração que nutria por ele.

Lembrava-se das horas em que falava com ele e em que pacientemente a ouvia e no fim pragmaticamente lhe solucionava, em poucas palavras, o emaranhado de ideias e de problemas que ela era perita em construir. Ele ouvia-a e isso era, de tudo, o que mais fazia vibrar. Era raro sentir que alguém se interessava genuinamente por ela. Era bom sentir que era admirada fisicamente, mas o que a fazia pular era sentir que alguém lhe admirava a alma e que gastava tempo a ouvi-la e a descobri-la. A noite magicamente discorria e aos poucos ela apercebeu-se que algumas coisas tinham mudado. Ele estava cansado, já não tinha paciência para ouvi-la e a atenção que lhe dedicava era agora mais centrada nele. Ao mesmo tempo que pensava em si, reflectia no que ele teria passado ao longo deste tempo, que o fizera voltar-se tanto para si. Uma espécie de defesa, talvez. Sentiu-o egocêntrico, e a sua atenção era dividida com outras coisas que não existiam antes ou que ela não vira.

Acima de tudo percebera que era ela que estava mudada e que tinha descoberto em si a força para saber que merecia muito mais. Não era melhor, apenas merecia mais.

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