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Fashion in the bag

Fashion in the bag

24
Nov16

Somos livres?

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Dizem-me sempre que sou livre, que posso fazer o que quiser...

Todos os dias a palavra liberdade corre as avenidas; dobra as esquinas, sobe os comboios e autocarros, trabalha de sol a sol, vive na sombra dos altos edifícios, nas paisagens bucólicas, no cansaço das gentes.

  A liberdade vive no campo das colheitas, ela própria é uma safra. Pensamos que a temos, que a apanhamos, que é nossa quando quisermos, supomo-nos os donos, os que decidem, os que “livre arbitram”. Pensamos que somos livres quando vivemos vidas que são, não- vidas, escondidas entre as luzes do que compramos.

 A liberdade é um grito! É sempre um grito… Pode ser abafado, estridente, mas é um berro que se solta, que vem do fundo de nós e que um dia diz: não quero mais!

Ser livre é não querer mas é, sobretudo, querer, desejar muito. Liberdade é o combustível que deve alimentar todas as almas que não querem perecer.

Dizem-me sempre que sou livre, que posso fazer o que quiser…

23
Nov16

Apagar sorrisos.

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O mar ralhava com as rochas, zangava-se e dava-lhe palmadas vigorosas. Ela estava de pernas cruzadas atordoada com o som que o mar fazia e deixava-se levar por aquela fervorosa discussão, mantendo o olhar pousado no azul e no branco. Seguia o movimento da água, o bailado das gaivotas, o cheiro penetrante que por ali habitava, sentia-se em casa.

Lembrou-se de várias pessoas que conhecia, umas que ainda a acompanhavam, outras que apenas via em sonhos ou em pensamentos. Passavam-lhe pelos olhos, uma a uma, por vezes de forma delicada, outras de forma brusca. Sentia o olhar terno de uns, as palavras amáveis e sinceras de outros, mas não esquecia a maldade e as sombras que também lhe tinham oferecido.

Respirou fundo, absorveu o cheiro do mar, açambarcou-o totalmente e deteve-o o máximo que pode, em si.

Pensou em qual teria sido a pior coisa que lhe haviam feito, não sabia a razão de tal pensamento a visitar, mas a verdade é que sentiu esta dúvida e isso obrigou-a a revirar, por fora e por dentro, o saco das memórias. Por vezes teria querido deitar este saco fora, no fim acabava por sentir um enorme apego a ele, sabia bem que aquele saco era ela, com o avesso e o direito, com remendos e tecidos novos, tudo isto era o que a fazia como era. Por fim lembrou-se do pior que tinham querido fazer-lhe, do pior que se pode fazer a alguém. Os olhos tornaram-se pequenos e cortantes. O pior pensou, com as palavras a formarem uma frase gritante: - O pior, é quando nos tentam apagar o sorriso...

O mar fez as pazes com as rochas cinzentas e ela sorriu, sorriu muito.

22
Nov16

O preço ou o valor das coisas?

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Chegava ao café do Senhor Alberto ainda cedo, sentava-se na cadeira perto da porta, folheava os jornais e esperava que o Inácio chegasse. Há muito que iam juntos para o trabalho. Ela simpatizava com Inácio, mas não podia dizer que gostava dele. Na realidade o colega era um hábito, alguém que a impedia de começar o dia sozinha. 

Assim que chegava Inácio atirava-lhe com um bom dia mal disposto, pedia um café e sentava-se desajeitadamente na sua mesa. Ela alinhava os jornais, olhava de lado para ele que começava a falar, imediatamente.

O monólogo habitual tinha sempre o mesmo tema: o preço das coisas. Contava sobre o filho, dono do melhor computador, acerca do carro que tinha custado muito dinheiro, nas férias à Indonésia que tinham custado "os olhos da cara", no café cada vez mais caro, no sofá que ia comprar para o Natal e que era o mais dispendioso de todo o prédio. Nem o vizinho Fernando,empresário na área das carnes, tinha um tão caro, dizia ele.

No fundo ele coleccionava coisas caras, pensava ela. Era um coleccionador de nadas.

Ouvia-o, esboçava um leve sorriso,  calava-se. Todos os dias era o mesmo enfadonho rol de palavras, a mesma ladainha sobre coisas, sobre preços. Uma conversa que escondia, o vazio em que Inácio se encontrava. Um desenrolar de palavras que não tinham um eco seguro, que apenas desfilavam, à frente de todos, mas onde não existia cor. Ela via claramente isso, mas deixava-o viver aqueles momentos de garantida satisfação. Isso aconteceu durante anos.

Um dia, era um dia de chuva, tenho a certeza. Ele falava sobre a roupa que o filho tinha, comprado no dia anterior.

- Só a camisola tinha sido quase o valor de um salário mínimo, esclarecia ele.  Nesse dia ela sentiu uma perturbação que desconhecia, tentou tapar a boca com a mão, prender as palavras que ameaçavam sair, mas não conseguiu e quando se apercebeu já o olhava nos olhos perguntando-lhe em tom indignado: - E o valor da camisola e o valor de tudo o que tens? Sabes qual é? É que o valor é muito mais elevado que o preço, não te parece? O que tens tu que realmente seja valioso? Inácio calou-se, colocou o café de lado, baixou os olhos e caíram-lhe lágrimas sobre o fato elegante. Ela  ficou incomodada, olhava para o chão, inquietava-se com o som que as suas palavras ainda produziam. Um som duro, cortante, demolidor. 

Ao fim de um tempo, que pareceu longo, ele respondeu-lhe: Aquilo que tenho mais valioso na vida são os momentos que passo contigo, todas as manhãs, mas esses não têm preço. Esses não te consigo dizer quanto custam. Sorriram os dois e foram juntos para o trabalho, naquele dia, como verdadeiros amigos.

21
Nov16

Cada vez que uma folha cai...

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tomba um pedaço de tempo, que nos lembra que temos cada vez menos do tempo

Cada vez que uma folha cai...

esquecem-se os segredos que o vento ciciou, numa esperança vã de prolongar estórias

Cada vez que uma folha cai...

no seu corpo frágil e crepitante morrem as memórias de Primaveras grávidas de vida;de promessas que nunca se concretizaram, de sonhos coloridos e definidos, com contornos sorridentes e esperançosos

Cada vez que uma folha cai...

acaba e começa a  vida, renovam-se amores, chora-se, ri-se, por entre um cansaço de corpos que não param de caminhar

Cada vez que uma folha cai...

um rosto gelado procura o calor do toque, que não conhece há muito

Cada vez que uma folha cai...

 um grito surdo promete uma liberdade encasacada

Cada vez que uma folha cai

há um laço que se solta e que nos faz correr atrás do que não conhecemos...

Assim é, quando uma folha cai!

 

 

 

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