Henry Holiday, First Meeting of Dante and Beatrice, 1877

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Estava sentada na velha poltrona de pele castanha. A porta entre aberta presenteava-a com os sons de uma vida pulsante que não lhe pertencia. Ali sentada, desejou ser esquecida do mundo. Lembrava-se de tanto, que seria suficiente para preencher as folhas soltas do seu caderno azul. Passou os dedos pelo azul, depois pelo papel, recheado de pequenas linhas. Suspirou, fechou-o e encostou-o ao peito. A vida é muito mais do que aquilo que fazemos dela, pensou. É feita por acasos, por sortes e azares, por encontros e desencontros. Apagou o pequeno candeeiro dourado e brincou demoradamente com o fio. Ficou na penumbra e foi quando se viu melhor. Tentou escrever na alma, o único lugar onde as palavras não são mentirosas, mas a escrita num lugar imaterial é tão límpida e perfeita que teve medo. Tinha sempre medo das coisas leves e perfeitas , daquelas que a levavam a ela... tinha tanto medo. Tirou os sapatos, vermelhos, elegantes e encostou-os perto da mesa. Ficou com os pés no chão branco e frio. Pensou na bondade, nas vestes que a cobriam, na raridade que a perpetuava. Sentiu o frio do chão, ficou quieta, muito quieta, em silêncio. Tinha de escrever na alma...