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Fashion in the bag

Fashion in the bag

08
Mar17

Admeto, Alceste e os egoísmos

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(imagem retirada da net)

 

Estava deitada na margem do rio, bem perto do local onde o rio se torna mar, onde deixa a infância e se torna adulto. O sol estava quente e deixava-me num torpor que me fazia manter deitada. Senti alguns passos e levantei lentamente a cabeça.  Ao pé de mim estava Admeto que me olhava com um sorriso. Sentou- a a meu lado e ficamos de olhos fechados a falar de tantas coisas que é impossível lembrar-me de todas. Admeto era amável com todos o adoravam. Contou-me que Apolo lhe tinha pregado uma partida e se tinha feito passar por um dos seus súbditos para ver como ele os tratava. Como gostara do que vira concedeu-lhe duas benesses: Casá-lo com uma boa rainha e dar-lhe uma nova vida quando estivesse a morrer.

Contou-me que casaria na próxima semana e quis que eu estivesse com ele. O casamento foi lindo, Alceste era bonita e boa. Acompanhei aquele casamento durante anos e havia harmonia e amor. Os dois eram bondosos e todos gostavam deles.

Um dia, porém, Admeto adoeceu subitamente e lembrou-se da promessa de Apolo, de uma nova vida. Apolo confirmou-me e combinou tudo com a Morte. Mas esta perniciosa e matreira, exigiu que alguém morresse para que Admeto vivesse. Todos concordaram que seria fácil, porque ele era tão bom e todos gostavam tanto dele que alguém morreria por ele. A verdade é que nem os pais, nem nenhum dos súbditos se quis sacrificar. Alceste foi aquela que foi ter com a morte e preferiu partir a ficar sem Admeto.

Admeto deixou e todos deixaram que Alceste o fizesse. Os egoísmos ficaram a dançar por entre aquele reino.

 

Hércules comoveu-se com a tudo aquilo e foi resgatar Alceste. Alceste voltou, mas nunca mais disse uma palavra. A visão do outro mundo ou do que se esconde por baixo da pele humana emudeceram-na.

Tinha compreendido que o amor e a morte, a generosidade e o egoísmo, a coragem e a covardia se entrelaçam, são inseparáveis, para formarem essa figura complexa, rica e imperfeita que é todo e qualquer ser humano.

 

14
Fev17

Aiakos e a persistência

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Aiakos trazia uma sacola no ombro e passeava no meio dos ciprestes. Naquele Verão fui à ilha de Aegina só para o conhecer. Sabia que era um homem justo e que tinha uma força enorme para cultivar. Cuidava da terra, fazia crescer tudo em que tocava mas,cultivava, acima de tudo a compaixão. Quando o encontrei e me apresentei conversamos longamente e contou-me que a terra que agora cuidava ia morrer em breve porque Hera assim o tinha decidido. Tudo pereceria. Olhando ao redor, julgava impossível (isso acontecer) tal a beleza que me envolvia.No entanto, a tristeza que lhe descia sobre o rosto depressa me convenceu.

Não tardou que tudo ficasse negro e doente. Os solos inférteis, as árvores caiam, tudo devastado. Aikos pediu a Zeus, seu pai, que lhe enviasse chuva e Zeus assim fez, mas era tarde porque tudo estava morto. Aikos não desistiu e começou a semear e a plantar tudo de novo, sem descanso e sem nunca olhar para o que tinha perdido. Tinha; uma vez mais, terra e rios, vontade e força e não se lamentava.

Ajudei-o como pude e só quando o chamava para lhe oferecer água ele se sentava por uns minutos, à sombra de uma árvore que tinha resistido. Falamos sobre as formigas que avidamente transportavam alimento e desejamos(os dois) que todos aqueles campos voltassem a ser habitados e vivos. Zeus ouviu-nos e passado pouco tempo as formigas receberam formas humanas e Aegia tornou-se uma das mais  bonitas ilhas de que há memória. Aiakos nunca desistiu ou parou, mesmo tendo que começar de novo, fazia-o sempre e sem revolta ou rancor. Dei-lhe um longo abraço e voltei.

31
Jan17

A vitória da ponderação e do carinho

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Atena estava na cidade, perto do mercado. Quando cheguei não a vi, mas ela reconheceu-me e veio falar-me. Trazia vestida uma túnica bonita e elegante presa num só ombro e o cabelo apanhado, atrás. Estava pálida e parecia preocupada. Falamos longamente sobre a  justiça, a vida e o mundo e contou-me que Ares defendia a guerra para a obtenção da Justiça. Atena discordava e isso fazia com que um rastilho se acedesse constantemente entre os dois, que explodia a cada dia, com mais frequência.  Atena ficava cada vez mais triste e preocupada. Sabia que se ela não estivesse perto, Ares provocaria, uma e outra  guerra, por vezes sem motivos, e isso traduziria-se em sangue derramado e vidas perdidas.

Raramente uma guerra resolve divergências e ideias diferentes, as guerras servem apenas para mostrar força, não são resolutivas. Acabam quando um lado se apresenta mais fraco, mas as divergências continuarão. Suspirou tristemente e agarrou-me na mão.

Atena  gostava de cultivar os seus altos princípios e ponderação sobre a necessidade de lutar para preservar e manter a verdade. Ela oferecia aos heróis as armas que deveriam ser usadas com inteligência, mestria e planeamento.

Pedi-lhe para ser eu a falar com Ares. Ao início não lhe pareceu uma boa ideia, mas acabou por aceitar.

Encontrei-o no meio de um exército pronto para partir para mais uma batalha. Ofereci-lhe uma flor, de cor rosa, e dei-lhe um longo abraço. Ficou quieto, envergonhado e arrastou-me para longe dos outros. Chorou agarrado a mim: ele venceu  a maior batalha que era a da luta consigo próprio. Atena juntou-se-nos e todos choramos de alegria. A ponderação  de Atena e o carinho venceram aquela luta.

10
Jan17

Como Medusa não encontrou o bem dentro de si...

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Escondi-me atrás das cortinas brancas e esvoaçantes, lá em baixo as ninfas passeavam no enorme jardim de pedra e flores. Medusa estava no quarto, mas não me via. Estava sentada numa cadeira alta e as serpentes esvoaçavam na sua cabeça, em competição entre si. Não lhe via os olhos, mas sentia-os tristes e pesados, ou não tivessem eles a capacidade de transformar tudo para onde olhavam em pedra. Mas os olhos estavam fechados. Via-o claramente. Deitou-se no sofá e as serpentes continuavam a clamar por vingança, por morte, por pedras e mais pedras. Ela sentia-se a portadora da morte, um anjo negro que não podia aspirar a mais nada do que viver para matar. Suspirou tristemente.Tinha deixado de acreditar em si, neste momento via(sentia) apenas o seu veneno, sem olhar para todo o bem que tinha em si.

Abruptamente Perseu entrou no quarto e com um golpe de espada cortou a cabeça a Medusa. Levei a mão à boca horrorizada, mas nada disse. Uma jarra de flores caiu no chão onde estava, já, o sangue derramado. Da veia esquerda um veneno poderoso misturava-se com o sangue, na direita um antídoto capaz de devolver vida aos mortos. Fiquei por ali muito tempo, revoltada e triste. Medusa concentrou tanta da sua energia no mal, em tirar a vida, que se esqueceu que só ela poderia dar de novo essa vida. No chão continuavam as flores, umas transformadas em pedra e as outras com as mais bonitas cores que já tinha visto.

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15
Dez16

Nike a Deusa que desejava competir

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Nike estava sentada numa enorme laje que pendia sobre um campo de jogos. Tinha o cabelo preso numa trança e vestia uma túnica branca e leve. Nike estava triste, o seu belo rosto estava atado com laços cinza e pretos e as lágrimas caiam entre os nós dos laços.

Fiz-lhe uma festa na trança e sentei-me perto dela, em silêncio. Por vezes estar calado é a melhor maneira de ajudarmos os outros. Penso sempre que, o silêncio quando é amigo e sentido é a melhor oferta que podemos estender. Ficamos assim durante momentos a admirar o esforço dos que em baixo corriam e jogavam. O seu suor, o seu empenho e a sua luta eram comoventes. Há na competição uma disciplina e dedicação que são emocionantes. Por momentos pensei que Nike chorava por causa disso, mas na realidade Nike estava mesmo triste e enternecida, porque, tal como eu, ela admirava o esforço e a luta da competição e o que ela queria, o que ela ansiava verdadeiramente era, também ela, poder lutar, poder competir, poder ganhar ou perder.

Nike ganhara o previlégio de entregar a quem vencia a prenda da vitória, a confirmação de ser vencedor.

Mas o que era ela, realmente? Uma carregadora de medalhas e de taças, uma deusa alada que voa para entregar vitórias? Ela queria mais, desejava debater-se, reivindicar para si uma coroação do seu esforço e dedicação.

Pedi-lhe baixinho que fosse até ao campo e que corresse, corresse muito. Ela sorriu, limpou as lágrimas e os laços cinza e pretos desataram-se. Abriu as asas e nunca vi uma corrida tão bela e majestosa( fiquei com pena que só eu visse). Naquele dia, para ambas, ela foi a vitoriosa, não por ter ganho a corrida, não por ter entregue medalhas, mas porque quis correr.

 

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