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Fashion in the bag

Fashion in the bag

17
Jan16

Hoje apetece-me ... contar um conto

fashion

Emília estava sentada num pequeno banco feito de corda e madeira. O dia tinha amanhecido fresco e o Outono estava, com as malas feitas para que o Inverno pudesse ocupar o lugar que agora seria seu.

Emília enrolou os longos cabelos no cimo da cabeça e passou um elástico azul por cima fazendo com que o cabelo ficasse, bem preso, bem no alto da testa lisa e branca.

Cruzou as pernas e aconchegou o casaco, de malha cinzenta, contra si. Sentia-se uma vez mais vazia. Pensou e pensou e nem sabia bem porque se sentia assim.

Sentia saudades do pai, isso era certo. Nunca tinha conhecido ninguém que a ouvisse como ele, que a soubesse ler e que a soubesse sentir como ele. Fazia-lhe falta, sem dúvida.

Suspirou e olhou para cima. O céu estava vestido de tons cinza e azuis e ela pensou no mar. Quando olhava durante muito tempo para o céu lembrava-se do mar. O mar dava-lhe tranquilidade mas exercia, sobre ela, um atractivo estranho e que ela não conseguia explicar. Uma espécie de magnetismo, um chamamento, não sabia bem.

Pensou,  uma vez mais, porque estava triste. Lembrou-

 

 se que tinha lido, num desses artigos que toda a gente vê, que se conseguia saber qual a música que mais tocou no dia em que nascemos. Procurou a sua, a da sua mãe e por fim a do seu pai. Percebeu que a do pai era uma música que ela ouvia há anos e que sempre que a ouvia chorava e pensava, automaticamente, nele. Tinha até, há algum tempo, dito isso a um amigo. Aquela música era ele, pensou.

Arrepiou-se quando percebeu, através daquele programa, que a música era a mesma que ela já tinha sentido como dele. Para ela aquilo teve um significado profundo, uma espécie de mensagem, que talvez apenas significasse que ele ainda aqui estava. Tentou contar isso a todos os que gostavam dela. Uma espécie de alegria escondida que queria partilhar, uma insegurança que precisava de ser confirmada. Tinha a certeza que quando dissesse todos perceberiam que ele estava com ela e que lhe diriam, contentes, que ele nunca a tinha deixado.

A música significava uma ligação, uma confirmação de presença e de conhecimento.

Disse a quem ela gostava mas, ninguém percebeu e ela fechou-se, ficou pequenina e abandonou-se na cadeira de madeira. Ficou assim durante algum tempo. Depois levantou-se, entrou em casa, demoradamente, e fechou a porta. O inverno chegou.

 

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