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Fashion in the bag

Fashion in the bag

29
Mar17

Ser pequeno é prender

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 (imagem retirada da net)

Sentou-se na mesa do café que ficava em frente à escola, onde ela trabalhava. Tirou um cigarro e acendeu-o, nervosamente. Sabia o que ela lhe ia dizer, pressentia-o, pelo menos. Desde que ela lhe dissera que tinha um assunto importante para falar com ele, que sabia o que era. Atirou uma baforada para longe e amachucou, com os dedos, o papel da caixa dos cigarros. Sentia-se pequeno cada vez que pensava nela, não porque ela o fizesse sentir pequeno, mas porque perto dela todos eram pequenos. Sabia-lhe a força, descobria-lhe, em cada gesto, a capacidade desmesurada de amar.

Admirava-lhe os olhos brilhantes quando se entusiasmava com um tema. As palavras envolviam quem a ouvia, era impossível que assim não fosse. Ela punha uma tal força e entusiasmo que qualquer tema, mesmo os mais insignificantes ganhavam dimensão. Ela colocava amor em tudo, ela punha-se a si, à sua alma, em tudo o que tocava.

Imerso nestes pensamentos, viu-a chegar, com um vestido verde, elegante, de sorriso na cara e cabelo esvoaçante. Cumprimentou-o com um beijo, pareceu-lhe ainda mais bonita. Acompanhava os movimentos dos lábios e adivinhava as palavras que ele já conhecia, sempre sem ouvir. Invejava-a e estava contente, mais que isso, estava feliz por ela e por ele, mas não conseguia dizer-lhe. Ao contrário tratou de encontrar aspectos negativos, amarras que a prenderiam e não a deixariam voar, algemas que a fariam estar perto dele e não lhe descobrir a fraqueza. Tempos depois, na mesma mesa, percebeu o mal que lhe tinha feito e viu-a tal pássaro numa gaiola. Deu-lhe as chaves e ela convidou-o a voar com ela...

08
Mar17

Admeto, Alceste e os egoísmos

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(imagem retirada da net)

 

Estava deitada na margem do rio, bem perto do local onde o rio se torna mar, onde deixa a infância e se torna adulto. O sol estava quente e deixava-me num torpor que me fazia manter deitada. Senti alguns passos e levantei lentamente a cabeça.  Ao pé de mim estava Admeto que me olhava com um sorriso. Sentou- a a meu lado e ficamos de olhos fechados a falar de tantas coisas que é impossível lembrar-me de todas. Admeto era amável com todos o adoravam. Contou-me que Apolo lhe tinha pregado uma partida e se tinha feito passar por um dos seus súbditos para ver como ele os tratava. Como gostara do que vira concedeu-lhe duas benesses: Casá-lo com uma boa rainha e dar-lhe uma nova vida quando estivesse a morrer.

Contou-me que casaria na próxima semana e quis que eu estivesse com ele. O casamento foi lindo, Alceste era bonita e boa. Acompanhei aquele casamento durante anos e havia harmonia e amor. Os dois eram bondosos e todos gostavam deles.

Um dia, porém, Admeto adoeceu subitamente e lembrou-se da promessa de Apolo, de uma nova vida. Apolo confirmou-me e combinou tudo com a Morte. Mas esta perniciosa e matreira, exigiu que alguém morresse para que Admeto vivesse. Todos concordaram que seria fácil, porque ele era tão bom e todos gostavam tanto dele que alguém morreria por ele. A verdade é que nem os pais, nem nenhum dos súbditos se quis sacrificar. Alceste foi aquela que foi ter com a morte e preferiu partir a ficar sem Admeto.

Admeto deixou e todos deixaram que Alceste o fizesse. Os egoísmos ficaram a dançar por entre aquele reino.

 

Hércules comoveu-se com a tudo aquilo e foi resgatar Alceste. Alceste voltou, mas nunca mais disse uma palavra. A visão do outro mundo ou do que se esconde por baixo da pele humana emudeceram-na.

Tinha compreendido que o amor e a morte, a generosidade e o egoísmo, a coragem e a covardia se entrelaçam, são inseparáveis, para formarem essa figura complexa, rica e imperfeita que é todo e qualquer ser humano.

 

30
Nov16

Calipso, amar quem não nos ama?

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                                                            (imagem retirada da net)

Comecei a subir a serra devagar. Contornava as pedras, procurava veredas e a respiração denunciava o cansaço que ameaçava visitar-me. Quando me abeirei do cimo procurei uma floresta que concebia como bela, a acreditar nos relatos que tinha ouvido.

Andei durante muito tempo, mas descobri, não uma floresta, mas um mundo encantado onde as árvores assumiam uma perfeição sem modéstia e a água saciava os campos. No meio do verde habitava um pequeno ajuntamento de pedras e uma gruta.Tentei olhar para dentro da gruta, mas estava muito escuro.

Preparava-me para me virar quando vejo Calipso, atrás de mim, com um olhar aborrecido. Cumprimentei-a, mas ela tentou afastar-me. Fiquei triste, mas nada lhe dei demasiada importância. Continuei a olhar as árvores a água, e a cada passo era a harmonia que me dava a mão e me acompanhava.

Arrumei a garrafa de água, na mochila, e preparava-me para regressar, quando Calipso me agarrou no braço.

Estava despenteada com olhos de choro e pediu-me se podia sentar-me por um instante. Acedi e ouvi-a atentamente. Contou-me que Ulisses estava preso na gruta e que ela tecia e fiava dia e noite para que ele gostasse dela, mas não conseguia. Ele só pensava em Penélope, sua mulher. Aconselhei-a a deixa-lo, mas ela dizia-me que não conseguia viver sem ele. Expliquei-lhe demoradamente  como é difícil obrigar alguém a gostar dela e que fazer isso não demonstrava amor, mas sim egoísmo e mesquinhez. Começou a chorar e voltou para a gruta.

Fiquei à espera um longo tempo alimentando a esperança que ela deixaria Ulisses voltar para casa, mas tal não fez. Ulisses continuou um longo tempo enclausurado com Calipso, mas na sua cabeça e no seu coração só Penélope entrava. A sua prisão era um cativeiro ilusório porque ele nunca estivera, de facto, preso. Ninguém está preso quando ama.

Hermes forçou Calipso a soltar as amarras de Ulisses e ela, arrependida, ajudou-o a voltar a casa. Não se prende quem não nos ama...

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