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Fashion in the bag

Fashion in the bag

30
Jan17

Menina, gafanhoto: Descansar não é desistir

fashion

 

Sentou-se no chão com as costas no muro e no meio do jardim. A terra por baixo das calças azuis quase se fundia com elas, deixando a ideia que terra e menina seriam  a mesma coisa. As tulipas começavam a encher o pequeno espaço de luz e de cor, mas ela não reparara. Deixou-se ficar  com o tímido sol a percorrer-lhe primeiro o rosto e depois as mãos e, por mais que se esforçasse, não conseguia levantar-se. Estava cansada. Os últimos dias tinham sido particularmente difíceis e por mais que tentasse não lhe vinha ao pensamento nenhuma justificação para que se levantar e continuar.

Estava abandonada neste pensamento quando olhou para o chão e  descobriu,entre um amontoado de ervas um pequeno gafanhoto verde, sozinho e apenas com uma pata. Esta imagem fez com que toda a sua atenção virasse, como um leme, para o pequeno ser. Percebeu que lhe era difícil andar e procurar comida, que tinha de defender-se dos outros gafanhotos e que, para beber uns raiozinhos de sol, tinha de esperar que quase já não houvesse sol, para não ficar demasiado exposto. Parava muito, muitas vezes, e parecia cansado. Deteve-se perto do muro, com a terra a envolver a única pata que existia e ficávamos com dúvida onde começava a pata e acabava a terra, deixando a ideia que gafanhoto e terra seriam o  mesmo. Durou pouco esta paragem. Rapidamente o gafanhoto saltitou e continuou em busca de alimento; de sol, de novo com energia e resoluto. Uma coisa era descansar, (parecia dizer) outra era desistir.

11
Jun16

Cansaço

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cansaço.jpg

 

 

Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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