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Fashion in the bag

Fashion in the bag

06
Fev17

Alexandrina nunca se queixava

fashion

 (imagem retirada da internet)

 

Ecoavam os sons das crianças que com as palmas das mãos pronunciavam ritmadamente lengalengas infantis e melódicas. Ao pé de Alexandrina estavam sempre crianças. Nunca consegui explicar porque razão as crianças se aproximavam dela, mas havia sempre crianças.

Alexandrina era baixa e forte, com o peito até ao regaço. De todas as vezes que a vi, usava sempre a  mesma bata de flores azuis e vermelhas, com um pequeno fecho de lado. A única vez que apareceu de forma diferente foi quando o padre, já velhinho, faleceu. Nesse dia Alexandrina trajava um elegante fato preto, com uma blusa branca. Desde que lembro tinha o cabelo grisalho,comprido que usava num enorme carrapicho atrás da cabeça. Por vezes quando passava na rua em que vivia, pela manhã, vi-a no quintal com o enorme cabelo numa mão e um pequeno pente no outro. Levava tempo até que todo o cabelo estivesse penteado e atado, mas era um ritual que ela não descurava. Alexandrina ficou viúva muito cedo e com três filhas para sustentar, naquele tempo o melhor para uma mulher nessa condição era casar de novo, ou então trabalhar nos "cortes". Alexandrina não quis casar, de novo, e trabalhava de sol a sol para que naquela casa nunca faltasse o pão. Apesar do aspecto rude, Alexandrina tinha um olhar bondoso e as filhas eram o seu poço de força e a sua alegria. Nunca se queixava e assistiu quieta à saída de cada uma delas( para o trabalho na grande cidade, ou na cidade grande). Assim que a última se foi Alexandrina deixou de pentear o cabelo e aparecia com ele solto, sem brilho e com um aspecto desgrenhado. Foram tempos dificeis para Alexandrina que só comia porque as vizinhas, com a desculpa de ter demais, lhe levavam.  Um dia já tarde a filha  mais velha bateu-lhe à porta, em prantos e Alexandrina acolheu-a nos braços com medo do que a filha tinha para lhe dizer.  Percebeu que a filha estava grávida de gémeas e que temia criá-las numa cidade onde não conhecia ninguém e o tempo era pouco entre o trabalho e a casa. Alexandrina acalmou-a e disse-lhe que ficava ela com elas até serem mais crescidas. As netas ficaram com ela até já serem adultas e seguirem para o estrangeiro. Durante todo o tempo que as teve Alexandrina cantava, trabalhava e o cabelo ganhou o brilho e o cuidado de outrora. Foram tempo felizes, esses.

Nunca se queixava... nunca se queixava. A única vez que se lamentou, foi em forma de grito, perdeu a força numa das pernas, depois num braço e nunca mais falou. As meninas, como ela lhe chamava, não vieram e o olhar bondoso e o cabelo longo estão hoje arrumados no canto de uma sala, onde faltam risos e onde há frio, muito frio. 

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