As palavras evadiam-lhe a boca como um torrente de água que nenhum dique consegue travar. Por mais que tentasse elas tinham vontade própria e eram resultado de um longo envenenamento interior. Ele olhava-a e respondia sem saber bem como, mas nada a travava. Os olhos brilhavam-lhe de raiva, o tormento que passara durante os últimos anos tinha sido transformado em sons e palavras e agora, nada os podia travar. Não sabia para onde ir, mas sabia que não podia mais ficar calada. Era impossível faze-lo e continuar ressentida. Não sabia o que a esperava a partir dali, não previa nada de fácil, nem de bom, mas calar o sentia era fazer com que se mantivesse cativa e disposta a que continuassem a servir-se dela.
Os interesses sobrepõem-se muitas vezes aos sentimentos. Os interesses aguçam quase sempre os egoísmos e o que há de pior em nós, pensou. Há uma corrida desenfreada, para conseguir mais, para ser melhor e para isso não interessa que os outros se magoem ou sejam suprimidos. Interessa servir-se e descartar.
Finalmente as palavras começaram a faltar-lhe, assim como lhe faltaram, também, as lágrimas. Sentia-se livre, ao mesmo tempo culpada por ter dito tudo. Durante toda a vida, sempre se sentira culpada. Todos sabiam disso e faze-la sentir ainda mais era o seu maior trunfo. As palavras acabaram e deixaram instalar-se o silêncio...
Há dias em que por mais que queiramos as palavras teimam em ficar em nós como se temessem que o seu nascimento lhes traga uma luz que não interessa ser absorvida.
Quietas no seu canto, as palavras brincam com memórias, escrevem canções que nunca serão tocadas e acariciam ideias que temem nunca serem ouvidas. Quantas palavras ficam presas reféns de um ouvido que nunca está disposto a ouvi-las. Talvez se percam, entre outras palavras já ditas e não ditas.
Muitas coisas se perdem por esperarmos, outras ganham-se. Há sempre um momento em que sabemos que façamos o que fizermos vamos sempre perder ou ganhar qualquer coisa. Assim é com as palavras. Ganhamos em as guardar, mas há um vazio que fica nesse ecoar sem som. Há sempre um mar de ideias; podem ter som, ou não, mas existem e estão lá.
Talvez amanhã consiga dizer o que as palavras querem dizer, hoje não, hoje as palavras estão apenas aqui, sem estar.
Sentaram-se os dois em frente à lareira que oferecia um calor aconchegante e efusivo. Ela com uma manta pelas costas e com uma chavena de chá de limão, nas mãos, estava calada e mordia de vez em quando os lábios. Ele pegara num livro que folheava distraidamente. Quem olhasse para aquele quadro, pensaria que estavam zangados ou que nada tinham em comum. Ainda assim estavam unidos: Ligava-os o silêncio. No seu dizer sem palavras, ela pensava que talvez o que mais admirava nele era a capacidade de lhe dizer tantas coisas em silêncio.
Uma flor que era deixada em cima da mesa, um pequeno almoço que aparecia na cama, uma mão que ela sentia nos cabelos protectora e amiga.
Para ele as palavras significavam pouco, muito pouco. Podemos dizer o que quisermos, pensava ele, fingir sentimentos com as palavras, vesti-las com bonitas cores, mas depois, como será quando é preciso mesmo demonstrar coisas?
A tarde foi passada nesse diálogo mudo, nesse gostar sem dizer e nem por um momento as palavras fizeram falta.
M.F.: Fixement, le ciel se tord Quand la bouche engendre un mot Là, je donnerais ma vie pour t'entendre Te dire les mots les plus tendres
Seal: When all becomes all alone I'd break my life for a song And two lives, that's to tomorrow's smile I know, I will say goodbye But a fraction of this life I will give anything, anytime
M.F.: L'univers a ses mystères Les mots sont nos vies Seal: We could kill a life with words Soul, how would it feel M.F.: Si nos vies sont si fragiles Seal: Words are mysteries M.F.: Les mots, les sentiments Les mots d'amour, un temple
Seal: If I swept the world away What could touch the universe I would tell you how the sun rose high We could with a word become one M.F.:
Et pour tous ces mots qui blessent Il y a ceux qui nous caressent Qui illuminent, qui touchent l'infini Même si le néant existe M.F. & Seal: For a fraction on this life I will give anything, anytime
M.F.: L'univers a ses mystères Les mots sont nos vies Seal: We could kill a life with words Soul, how would it feel M.F.: Si nos vies sont si fragiles Seal: Words are mysteries M.F.: Les mots, les sentiments M.F. & Seal: Les mots d'amour, un temple
Enrolou o papel pela décima vez. Não conseguia escrever o que queria e o que sentia teimosamente não saltava para o papel. Talvez o que tivesse a dizer não fosse passível de ser colocado num papel branco e encerrado dentro de um envelope. Talvez tivesse de falar, mas não tinha tempo e as palavras teimavam em prender-se-lhe na garganta.
Arrumou a cadeira, levantou-se e caminhou pela floresta. Naquele dia os pinheiros cobriam o céu e os castanheiros teimavam em enviar um dos seus ouriços como presente. Imperava um silêncio perturbante, daqueles só percebidos quando nós próprios estamos imersos em outro maior que o que vive à nossa volta. Agarrou num pequeno galho, de giesta, e à medida que andava torcia-o entre os dedos. Andava e andava e sentia por baixo dos pés as folhas e os ramos a estalarem. Sentiu uma estranha sensação de paz e solidão. Absorveu tudo, com os olhos, com as mãos... tudo era seu por um instante, porque tudo é nosso quando respiramos, intensamente, o que nos envolve.
O vento começou a girar e as folhas rodopiaram como num grande baile. A porta abriu-se, as folhas de papel enroladas varreram o chão e entraram no baile das outras folhas da árvore. As palavras por lá escritas, deambulavam por todo o lado. Queria prende-las, mas não conseguiu. As palavras escritas, vezes sem conta no papel, estavam soltas, encontraram eco no silêncio, viveram no vento e entre as árvores. As palavras são vento e areia, são lágrimas e sorrisos e uma vez escritas, encontram em quem as escuta, a sua habitação protectora. As palavras andam por aí...