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Fashion in the bag

Fashion in the bag

04
Out20

A descoberta da alma

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Uns acordes de piano vindos da sala ao lado interrompiam-lhe, de tempos a tempos, o pensamento. Suaves, persistentes, lancinantes... Passou as mãos pela mesa de pinho e sentiu a maciez da madeira nos dedos. Continuou a percorrer cada canto daquele que, outrora, tinha sido o seu quarto. Conseguiu ouvir, longinquamente, o seu riso quando o pai a convidava para dançar,  recordou o conforto da mãe a aconchegar-lhe as cobertas. Lembrou-se do abandono que sentia quando se julgava segura. Viu e sentiu outro mundo. Viveu por momentos em outro tempo que lhe parecia, agora, quimérico. Teve saudades desse tempo, mas sentiu saudades do outro: daquele que estava por vir. Esse desconhecido seria sempre um entrosado do outro que apenas existia tenuemente. Sacudiu a saia lilás e puxou o cabelo para o lado. Colocou a mão na porta e preparou-se para sair, mas sentiu a mão dele, quente e macia, na sua pele. Deixou-se ficar, quieta, com os pensamentos congelados e sentiu... permitiu-se sentir. Precisava de encontrar a sua alma. Essa busca  e esse encontro talvez lhe custasse a vida, não o sabia ainda. Como uma espécie de escrita revelada apenas através da leitura de um código secreto, a sua alma precisava de uma chave. Não de ferro, ou de bronze... sabia, apenas, que a graciosidade de algumas almas, desconhecidas, impelia à descoberta da sua própria graciosidade.

29
Dez19

Festejar um ano mau

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Tenho o péssimo hábito de desvalorizar as mudanças e as coisas novas. As coisas "velhas", conhecidas e a que me habituo são as melhores do mundo, em detrimento das novas. Não interessa se parecem promissoras, melhores até do que as que já tenho, mas são novas, não prestam. Há pessoas que me vão conhecendo e sabendo desta minha incapacidade de aceitar a novidade adotam uma postura de Jó ou de Santo Antão e desafiam-me. A princípio digo sempre que não, mas depois acabo, com relutância, por experimentar e... gostar. 

Esta questão também tem a ver com as pessoas que conheço, de novo. No início nunca quero fazer nada, olho de lado com desconfiança, mas depois acabo por aceitar a maioria das pessoas que conheço, como amigos. 

O mesmo sucedeu com alguns colegas de uma aula de artes que frequentei. Eram todos de teatro, "malucos", dionisíacos e "fora da caixa". No primeiro dia a minha ideia foi: "não ponho lá mais os pés. Aulas de Artes performativas, com gente do teatro, eu não"! Mas fui indo, indo até ao final do semestre. Descobri pessoas maravilhosas. Tão maravilhosas que hoje recebi um convite, de uma delas, para o seu aniversário amanhã.

Emocionei-me. Mas a emoção não veio do convite, em si, mas a roupagem do convite. Num texto  poético e leve, a A. explica que convida os amigos porque este ano reúne todas as condições  para que se efective a comemoração do seu aniversário. Justifica(agora vem a parte surpreendente), que tem motivos para comemorar porque foi o pior ano da sua vida. Continua, esclarecendo que passou por um dilúvio, por dias de chuva e frio e que, ainda assim, não se afogou. Não tem motivos para estar triste e quer, com toda a força, festejar a Vida. 

Amanhã, A., não estarei contigo, mas festejarei a vida e o privilégio que tive em conhecer-te. 

14
Dez19

Desejos e fins de ano

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 Com um ano prestes  a terminar,  a inevitabilidade do balanço e dos desejos persegue-nos.

Não que os balanços  não se façam todos os dias e os desejos não persigam os nossos passos desde que acordamos. Mas o fim do ano, tem qualquer coisa de nostálgico, ao mesmo tempo promissor. O mesmo se passa com as palavras que escolhemos para caracterizar o fim de ano. 

Parece uma contradição isso que junta o balanço aos desejos. Uma análise atenta à etimologia da palavra revela-nos, no entanto, que a  palavra balanço encerra no seu amago a significação de um movimento oscilatório entre o que vai e o que vem, mas também o solavanco. O desejo completa o balanço na medida em que significa (etimologicamente)  esse querer "  fixar as estrelas". E seguir o desejo é seguir a estrela. O solavanco causado pelo balanço impele-nos a perseguir a "boa estrela".

Um ano acaba, outro começa, num movimento que quase eterniza o retomar. Mas o que retorna é sempre diferente, nós somos diferentes. Confesso a minha descrença em relação a uma repetição total nos retornos de Sísifo. Em cada repetição Sísifo retorna diferente porque até no absurdo há desejos, nem que seja o desejar não retornar. 

Acabo o ano com desejos, perseguindo as estrelas e acreditando que o que desejamos pode não estar apenas no céu.

14
Mai19

É a vida

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(imagem retirada da internet)

 

É estranha a vida - disse ela- depois de dar mais um gole na chávena de chá de camomila que ainda fumegava.  

- Arruma-se por blocos, por intervalos e por vezes avança, outras recua- continuou. 

Ele calado olhava fascinado para o entusiasmo que ela punha nas palavras, na voz e nas mãos. Admirava-a sem ser capaz de lhe dizer. Talvez até a invejasse, mas mantinha-se calado.

A ela sabia-lhe bem falar, mesmo sabendo que metade das palavras, dos seus pensamentos não seriam bem entendidos. Mas que interessava, pensou. Libertar palavras, por vezes é libertar a alma.

É difícil ser entendido- continuou- pousando a chávena.

É a vida- respondeu ele.

05
Mar19

Nos telhados há...

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Há uma imagem que me prende sempre que visito cidades diferentes, sobretudo no inverno: os telhados. 

Parece tolo, tanta coisa para olhar, algumas coisas quase inenarráveis, e eu penso em telhados. Mas...nos chapéus das cidades percebe-se tanto da história, que me sinto mergulhar numa imensidão de pensamentos profundos e variados, quando consigo ver todas as telhas das cidades. É óbvio que não conseguimos ver claramente tudo, mas a ideia de abarcar tudo com a visão, a imaginação do que não conseguimos contemplar, é arrebatadora.

E vive-se tantas coisas, tantas histórias que os telhados suspiram, e que só ouvidos mais atentos conseguem escutar.

Há uma certa melancolia nos telhados, mas há também um mundo  desconhecido por aqueles que vivem apenas nos rés de chão. O que se vê é diferente. Podia elaborar uma teoria axiológica, sobre a subida e a descida, quase moralizante, mas limito-me a escrever sobre o que sinto correr em mim, quando antevejo um telhado ou a ideia de um telhado. 

Sente-se o mundo de forma pulsante, porque temos uma perspectiva mais ampla. Há melancolia, mas há desafio pelo desconhecido que sobre as telhas conseguimos antever.  Sentimos, perto, bem perto, o bater das asas dos pássaros, que tal como nós descobriram que os telhados são outra dimensão.   Um espaço onde não há barreiras e  o olhar consegue alcançar muito mais do que apenas o imediato. Gosto de telhas e telhados, fecho os olhos e sinto que ao redor dos telhados todos podemos voar.  Nos telhados há outra cidade dentro da cidade. 

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