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Fashion in the bag

Fashion in the bag

29
Out18

O reino dos pinheiros

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(imagem retirada da internet) 

     Caminhou por entre os pinheiros despidos e cujas roupas ela pisava ao andar. Na passada regular e firme, nos recantos da sua alma de criança descobria rostos conhecidos e que, de alguma forma, tinham feito parte da sua vida. Não soava a balanço final, nem perto, apenas reflexões que ela gostava de fazer quando caminhava livre solta por entre as árvores. Não saberia responder, se lhe perguntassem, porque razão as árvores a acalmavam, mas era certo que o faziam. Provavelmente aquele espaço lembrava-lhe um mundo mágico onde gostava de se esconder para, de algum modo, escapar à realidade. Ali, no meio das folhas, do verde e do cheiro dos pinheiros ela encontrava o mais profundo de si. Naquele mundo, cândido e suave ela respirava sem dificuldade aceitando apenas aquela pátria onde as  regras e as fronteiras se extinguiram. Pensou, naquela manhã de Outono, nas pessoas que gostava, no cão branco e amigo, mas o que o pensamento escolheu foi pensar naqueles que lhe diziam tão pouco e que a enredavam tal qual uma teia de aranha.

Quem se oferece genuinamente não prende, a prisão é sempre contrária  à sensibilidade e ao sentimento.  No reino dos pinheiros a liberdade habita paredes meias com o amor e a amizade. Ali não há redes, nem teias. Nos dias de chuva tomam-se banhos, fica-se molhado, para que, mais tarde, o sol e o vento venham secar, apenas porque essa é a forma mais próxima que encontram do beijo.

Caminhou mais, caminhou sempre, mas percebendo que há reinos encantados onde só entra se deixa.

15
Out18

Do chapéu de chuva à falta de utilidade

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Parou junto de uma porta daquelas antigas de madeira, onde se consegue ver um outro mundo através das fissuras. Olhou para o chão do outro lado, para as ervas que o cobriam envolvidas pela orvalhada. Era o momento de ir, sabia que iria sem nunca sair dali, mas fisicamente estava na hora de avançar para outro lado.

O que procurava não sabia precisar, mas sabia a enorme falta e o vazio que a preenchia. Era agora, ou nunca, pensou.

Pegou na pequena mala de pele cinzenta, no chapéu de chuva e começou a andar. Era estranho ter trazido um chapéu, murmurou. Ela preferia a chuva, a andar carregada, mas hoje, precisamente hoje, tinha trazido o guarda chuva. De entre milhares de coisas que poderia trazer, escolheu precisamente esta, sem saber porquê. Ao mesmo tempo que andava, com passadas precisas e pequenas, olhava o chapéu, preto, sem graça, a pender das suas mãos brancas. Pensou em deitá-lo fora, hesitou, parou, olhou-o, ainda assim decidiu conserva-lo. O tempo estava fresco, a pender para o húmido, um pouco como o seu estado de espírito, poderíamos dizer. O chapéu não lhe era útil, mas nem sempre  a utilidade, deve ser o bastante para conservarmos alguma coisa. Melhor, por vezes a utilidade é o pior motivo para mantermos o que quer que seja. O chapéu, era preto, o seu estado de espírito também o era. Mas um chapéu de chuva fechado, encerra uma enorme promessa: a qualquer altura pode abrir-se, para proteger da chuva, ou dançar com o arco-íris.

08
Out18

Ressentimento

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                                                                             (imagem retirada da internet)

Penso sempre no passar dos anos como uma oportunidade para ser melhor. Acredito piamente que, com a experiência, sobretudo com as vivências temos a possibilidade de modificaro que nos parece menos bem em nós. Tal como acredito que isso possa acontecer comigo, perspectivo essa oportunidade para os outros. Infelizmente nem sempre assim acontece. Há pessoas que vão alimentando o que procuro diminuir.

Há muitos anos estudei longamente o tema do ressentimento, no momento com vinte e poucos anos pouco percebi.

Alguém com vinte anos, dificilmente é um ressentido. Pode ser um magoado, alguém triste e melancólico, até invejoso, mas não ressentido. Alguém com trinta, quarenta e por aí fora reúne todas as possibilidade de ser (ou vir a ser) um ressentido. A vida não é fácil e/ou esquecemos e seguimos em frente ou corremos o risco de passar a vida amargurados.

Estudei, como dizia, anos atrás que o ressentimento nega,em parte,o sentimento e oblitera a acção. Quem é ressentido, vive uma re-acção,  adoptando como único propósito de vida o de revidar e se vingar. 

Por vezes,já nem se lembra porque o faz, mas deixou de saber viver de outra forma. Esquece,no entanto, que deixou de viver a sua vida e vive em função do ripostar ao outro.

A cada dia  conheço mais pessoas ressentidas e amargas, pessoas que estão tão revoltadas com o mundo, com elas e que carregam tantas toneladas às costas que se esqueceram do que é agir e não re- agir.

O meu pensamento de hoje é,simultaneamente,um desejo. Penso na quantidade de pessoas que não conseguiu sentir o afago do vento, que nos brindou pela manhã,porque simplesmente já não sentem, por outro lado desejo, convictamente, que eu nunca seja assim.

25
Jul18

O pensamento fugia-lhe...

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Esta fotografia de uma mulher sentada à beira de um quebra-mar num porto em Tampa, na Flórida, foi publicada no artigo da National Geographic, “Flórida — a fonte da juventude”, em 1930.

 

A água batia forte na parede de granito creme levantando pequenas ondas com o embate. Ela envergava um vestido preto com um pequeno folho que ondulava a cada movimento da água. Estava sentada na parede com a pernas sobre o mar. Pensava em tantas coisas naquele momento que era difícil responder quando lhe perguntaram em que pensava. Era sempre assim. O pensamento fugia-lhe, ou era ela que escapava quando não queria responder às coisas que significavam. Foi sempre mais fácil ter um pensamento cheio, com mil coisas. Assustava-se quando não tinha coisas em que pensar. Admirava-se quando as pessoas diziam que tinham de descansar a cabeça. Ela era perita em encher a cabeça e em fazer com que ela não descansasse.

Cada vez que lhe perguntavam em que pensava assaltava-a uma alegria inexplicável por quererem saber do que estava para além do visível e do dizível. No entanto, o problema era esse... o dizível... Muitas vezes não conseguia dizer em que pensava e as pessoas ficavam irritadas. Como não sabes em que pensas? - Atiravam ressentidas.

E ela ouvia-se dizer, sem dizer: penso em tantas coisas.

Num campo cheio de margaridas, ou então apenas numa, na brisa suave do fim do dia, num suspiro, num toque, nos seixos frios do rio, numa canção, no abraço do meu pai... em tantas coisas. O estranho é que pensava  nestas coisas no meio de conversas que não eram nada disto. Por vezes conversas com temas sérios, que exigiam respostas sérias e as pessoas irritavam-se, claro que irritavam... e ela não conseguia dizer nada, estava além das suas forças.

O pensamento fugia e as palavras também. Ficava calada, sem saber o que dizer. Sentia um vento forte no campo de margaridas, a brisa desaparecia, o suspiro tornava-se lamento, o toque tornava-se consolo, os seixos magoavam, a música subia de volume e no fim, no final, mais mil novos pensamentos e sempre um abraço onde ela escondia a cara e adormecia.

23
Jul18

Transformação

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     Tenho pensado inúmeras vezes no significado do conceito transformação. Cheguei a analisar o significado da palavra, mas nunca fiquei suficientemente convencida. Transformar é mudar, é certo, mas muda-se o quê? Mudamos o estado, o aspecto, alteramos o interior. Tudo isso, mas não só. Transformar é usar muitas vezes o mesmo vestido com uns botões novos e umas rendas.

Herman Hesse compreendeu bem o conceito de transformação quando sentou Siddharta à beira do rio e o fez escutar. Era o mesmo homem, o mesmo rio, mas era tudo tão diferente, tudo transformado, a começar pelo próprio Siddharta. Quantas vezes ao longo da vida nos transformamos? Quantas vezes seria premente sentarmo-nos quietos, só a ouvir o rio? Por vezes não é possível manter nada do que existe e a transformação interior obriga-nos a vomitar as entranhas e a começar tudo de novo, quase a nascer de novo, outras vezes basta só, como já referi, sentar, escutar, bater as asas  e escolher novos botões. Como sugere a música é tempo de os pássaros chegarem e da transformação acontecer...

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