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Fashion in the bag

Fashion in the bag

14
Mai19

É a vida

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(imagem retirada da internet)

 

É estranha a vida - disse ela- depois de dar mais um gole na chávena de chá de camomila que ainda fumegava.  

- Arruma-se por blocos, por intervalos e por vezes avança, outras recua- continuou. 

Ele calado olhava fascinado para o entusiasmo que ela punha nas palavras, na voz e nas mãos. Admirava-a sem ser capaz de lhe dizer. Talvez até a invejasse, mas mantinha-se calado.

A ela sabia-lhe bem falar, mesmo sabendo que metade das palavras, dos seus pensamentos não seriam bem entendidos. Mas que interessava, pensou. Libertar palavras, por vezes é libertar a alma.

É difícil ser entendido- continuou- pousando a chávena.

É a vida- respondeu ele.

05
Mar19

Nos telhados há...

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Há uma imagem que me prende sempre que visito cidades diferentes, sobretudo no inverno: os telhados. 

Parece tolo, tanta coisa para olhar, algumas coisas quase inenarráveis, e eu penso em telhados. Mas...nos chapéus das cidades percebe-se tanto da história, que me sinto mergulhar numa imensidão de pensamentos profundos e variados, quando consigo ver todas as telhas das cidades. É óbvio que não conseguimos ver claramente tudo, mas a ideia de abarcar tudo com a visão, a imaginação do que não conseguimos contemplar, é arrebatadora.

E vive-se tantas coisas, tantas histórias que os telhados suspiram, e que só ouvidos mais atentos conseguem escutar.

Há uma certa melancolia nos telhados, mas há também um mundo  desconhecido por aqueles que vivem apenas nos rés de chão. O que se vê é diferente. Podia elaborar uma teoria axiológica, sobre a subida e a descida, quase moralizante, mas limito-me a escrever sobre o que sinto correr em mim, quando antevejo um telhado ou a ideia de um telhado. 

Sente-se o mundo de forma pulsante, porque temos uma perspectiva mais ampla. Há melancolia, mas há desafio pelo desconhecido que sobre as telhas conseguimos antever.  Sentimos, perto, bem perto, o bater das asas dos pássaros, que tal como nós descobriram que os telhados são outra dimensão.   Um espaço onde não há barreiras e  o olhar consegue alcançar muito mais do que apenas o imediato. Gosto de telhas e telhados, fecho os olhos e sinto que ao redor dos telhados todos podemos voar.  Nos telhados há outra cidade dentro da cidade. 

31
Dez18

Eurídice e o Ano Novo

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Eurícide foi picada por uma cobra e morreu. O marido, inconformado, vai ao mundo dos mortos e convence Hades a permitir que Eurícide volte à vida. No entanto, Hades impõe uma condição: ela pode viver, mas ele (Orfeu) não poderá olhar para trás.

Nestes últimos dias do ano pensei muito na história de Eurídice e Orfeu. Na importância que tem o seguir em frente, na renovação da esperança que se inicia com cada ano. Mas o olhar para trás(ou não olhar) é quase como uma caixa de pandora. Há males que devem ser encerrados e não mais voltar a eles. Temos de saber olhar para as coisas boas, apreciá-las, valorizá-las, mas as outras é deixá-las onde estão. A caixa quando se abre assemelha-se a um emaranhado que nos atinge enrolando-nos e aprisionando a nossa força e esperança. 

Quando se olha para trás sujeitamo-nos a voltar para o mundo dos mortos, como aconteceu com Eurídice e Orfeu. Neste ano, prestes a começar, devemos olhar para o que está em frente, nos caminhos que se nos oferecem e mais importante: caminhar sem pesos. Bom Ano 2019!

26
Dez18

O meu conto de Natal

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Todos os anos criou a tradição de escrever um conto de Natal. Meia dúzia de palavras arrumadas ao longo do papel branco. Estou a vê-la agora: a luz amarelada, caneta na boca, a ruga no meio da testa em sinal de que algo pesado se ali passa. Começa a rabiscar, depois pára, respira fundo e recomeça. Os dedos brincam com a caneta e finalmente as palavras saem de uma assentada. Houve muitos natais cheios daquela alegria mágica que só uma criança consegue explicar. Era tudo tão suave que o vermelho mais gritante empalidecia com medo de perturbar a harmonia e a delicadeza daqueles momentos. As noites eram curtas porque a expectativa e a emoção eram muito superiores ao sono. A cumplicidade, a risada, a protecção, sobretudo a compreensão deambulavam por aquelas vidas. Havia cor, muita cor ainda que muitas vezes esse colorido estivesse só nela.  O mundo real coexistia com um mundo maravilhoso que só ela via, mas em que acreditava com todas as forças. Aos poucos os alicerces desse arco íris, vivencial, foram saindo, uns porque a vida assim quis, outros porque se revelaram a pior das desilusões.  Ainda assim em cada Natal ela guardou um saco. Um pequeno saco, sem adereços, de tecido vulgar e todos os anos, ela coleccionava memórias. Boas memórias. O tempo passou e ela foi guardando os seus pequenos tesouros e recorria a eles sempre que a nuvem da desilusão por si passava. Hoje tem mil saquinhos, arrumados, alguns abertos, outros ainda fechados. Se olharmos para cada um deles vemos tanta coisa, que uma colecção de palavras não seria suficiente para explicar. 

Pousa a caneta, fecha os olhos e perto dela consigo perceber o regresso ao seu mundo onde existem estrelinhas mágicas a cintilarem,  neve na janela e o cheiro dos bolos pela casa.

Era Natal!

29
Out18

O reino dos pinheiros

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(imagem retirada da internet) 

     Caminhou por entre os pinheiros despidos e cujas roupas ela pisava ao andar. Na passada regular e firme, nos recantos da sua alma de criança descobria rostos conhecidos e que, de alguma forma, tinham feito parte da sua vida. Não soava a balanço final, nem perto, apenas reflexões que ela gostava de fazer quando caminhava livre solta por entre as árvores. Não saberia responder, se lhe perguntassem, porque razão as árvores a acalmavam, mas era certo que o faziam. Provavelmente aquele espaço lembrava-lhe um mundo mágico onde gostava de se esconder para, de algum modo, escapar à realidade. Ali, no meio das folhas, do verde e do cheiro dos pinheiros ela encontrava o mais profundo de si. Naquele mundo, cândido e suave ela respirava sem dificuldade aceitando apenas aquela pátria onde as  regras e as fronteiras se extinguiram. Pensou, naquela manhã de Outono, nas pessoas que gostava, no cão branco e amigo, mas o que o pensamento escolheu foi pensar naqueles que lhe diziam tão pouco e que a enredavam tal qual uma teia de aranha.

Quem se oferece genuinamente não prende, a prisão é sempre contrária  à sensibilidade e ao sentimento.  No reino dos pinheiros a liberdade habita paredes meias com o amor e a amizade. Ali não há redes, nem teias. Nos dias de chuva tomam-se banhos, fica-se molhado, para que, mais tarde, o sol e o vento venham secar, apenas porque essa é a forma mais próxima que encontram do beijo.

Caminhou mais, caminhou sempre, mas percebendo que há reinos encantados onde só entra se deixa.

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