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Fashion in the bag

Fashion in the bag

09
Jan17

Uma voz, sempre às dez..

fashion

                           (imagem retirada da net)

Quando lhe disseram que não ia mais falar com ele, nem vê-lo, sentiu uma dor lancinante, de tal modo que deixou de conseguir manter-se de pé e sem que soubesse explicar, as pernas dobraram-se  e ela, que estava encostada ao muro sentiu-se deslizar, conseguiu perceber a rugosidade da parede, nas costas, e quando percebeu (talvez muito tempo depois) estava no chão e as lágrimas começaram uma, após outra, a sair descontroladamente tal qual um rio quando lhe colocam pedras à frente.

No entanto, sabe-o hoje, as lágrimas não saiam devido a uma constatação de falta, no momento o seu aparecimento estava relacionado com o facto de ela pensar o que sentiria se perdesse e não pelo convencimento de que tinha perdido.

A certeza veio depois, muito depois. Veio quando viu a cadeira vazia e as pantufas roubadas  pelo pó. Sentiu-o quando se sentou e não teve ninguém que a ouvisse, que percebesse o que ela dizia, que a admirasse. Mas a falta percebeu-a, sobretudo nas rotinas e nos hábitos, aqueles que todos falam como se fosse alguma coisa feia e negativa.

Às dez ligava-lhe, todos os dias, estivesse onde estivesse. Queria sempre saber dela, o que ela fazia e como se sentia, para ele pedia pouco, talvez(ela não o sabia) o muito era apenas poder ouvi-la, saber que ela estava ali, na mesma dimensão, aquela hora. Todos os dias ela esperava aquela voz forte, mas cândida, uma espécie de alimento torneado e nutritivo. E os abraços? (que bom hábito era o de se abraçarem sempre). E os segredos? Os risos, as mãos? E o cheiro que por vezes se misturava com o mato por ter andado na floresta?

A perda por muito que se diga que não existe, totalmente, deixa faltas e vazios que nunca se preenchem, constrói dias sem significado onde não há uma voz, que está sempre presente às dez.

24
Ago16

Carta ao AVC

fashion

cer.jpg

 Caro Avc:

Escrevo-te hoje porque há, mais ou menos, um ano que te conheci. Não fui eu que te vi, mas pedi muitas vezes para que fosse. Seria mais fácil para mim ser eu a encontrar-te e muito mais suportável, se tivesse sido o meu corpo a sentir-te .

Mas o meu conhecimento de ti, veio através da minha mãe. A pessoa mais preocupada e terna que conheço. A pessoa que menos merecia encontrar-te, viu-te de uma forma cruel e desumana.  Quanto a mim, conheci-te da pior maneira. Não marcamos encontro, palavras não houve, nem sequer dei o meu consentimento para que viesses. Apareceste sorrateiramente, como um cobarde, atiraste a minha mãe para o chão e roubaste-nos, a mim e a ela, tantas coisas que é impossível, descreve-las.

Nesse encontro disseste-me, mas eu não ouvi, que o meu papel de filha tinha acabado, que deixaria de ter alguém que me protegia, mas que passaria eu a proteger e a cuidar. Deixei de saber o que era dormir descansada. Eu, que mal sabia cozer um ovo, descobri-me a ler tudo sobre o que era cozinha saudável e alimentos que fizessem bem ao cérebro. Ouvi várias vezes a pergunta se trabalhava na área da saúde porque, às tantas, até os termos médicos da doença e especificidades eu sabia.

Deixei de ter tempo para os amigos e aí descobri que os verdadeiros eram poucos. A brincadeira tinha acabado, e quando as coisas se tornam duras e difíceis poucos são os que se mantêm.  Fizeste-me repensar na minha vida, pensar que o trabalho(onde eu dava tudo de mim) era tão insignificante comparado com o que estava a viver que tinha de ser reduzido.

Há um ano ouvi que nunca mais iria ver a minha mãe a andar e muito menos ve-la atarefada, nas suas coisas. Que não iria mais ajudar os filhos, nem preocupar-se se tinham comido, ou não, se estavam cansados ou tristes.

Mas sabes descobri outras coisas também, que te agradeço. Sou melhor filha, melhor pessoa e apesar de muito dura, esta caminhada, estou cá, ela também, e estamos juntas.

As suas pernas estão cada vez mais fortes, querem é mexer-se e a mão... a mão fez-me hoje, pela primeira vez, a festa mais suave que já alguma vez senti. 

Queria só dizer-te que não considero a tua visita uma derrota e não acho que venceste! Não tenho uma mãe igual ao que tinha, mas ela cá continua a resmungar e a refilar e, sobretudo, a Amar. A minha vida está diferente, mas talvez eu precisasse dessa diferença.

Não posso dizer que foi um prazer conhecer-te, mas aceito esse encontro( mantém-te bem longe,de qualquer forma)!

 

Agradeço, sinceramente, que não voltes mais.

Adeus e até nunca!

 

 

 

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