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Fashion in the bag

Fashion in the bag

04
Jan17

Sino, coração e incompletude

fashion

 

Acabou de arrumar a última mala e sentou-se. Olhou em redor e sentia já a falta do que ia deixar. Era estranha esta falta porque dizia que detestava tudo naquele lugar, depois quando estava longe sentia falta daquilo que dizia não gostar. Era como se fizesse parte de tudo aquilo, mas tinha de se afastar para o sentir.

Sentia-se incompleta, sofria com essa incompletude, no entanto não sabia como encontrar o pedaço que lhe faltava. Talvez não fosse mesmo um bocado, provavelmente era uma ideia, um sentimento, não o sabia dizer.

Suspirou e olhou para o relógio, em simultâneo as badaladas na torre, da igreja, faziam-se ouvir: uma, duas, três, uma cadência perfeita e um som metálico e penetrante. Aquele som acompanhava-a muitas vezes, mesmo quando não o ouvia de facto.

Com aquele sino marcava-se a vida na aldeia. Ele anunciava mortes e festas, incêndios e celebrações. Antes quando estudava, o sino tocava quarenta minutos antes da hora do autocarro, as pessoas orientavam-se por aí, sabiam que eram oito menos dez e que tinham, precisamente, quarenta minutos para que o autocarro passasse e os levasse para a cidade mais próxima. Tudo girava em torno dos sons que o sino oferecia.

Como um coração o sino, era uma espécie de impulsionador da vida das gentes. A hora de acordar, de almoçar, de morrer, tudo marcado pela cadência das batidas. Cada acontecimento tinha um toque diferente, uma espécie de carrasco que ia, dia após dia, decepando mais uma cabeça. Por vezes anunciava festa e alegria, mas a maioria das vezes era apenas o constatar de mais uma falta, de menos uns passos que se ouviriam caminhar na aldeia. Nesses dias eram batidas tão fortes, que parecia que tudo tinha de se vergar ao luto que o sino anunciava. Nesses dias, nesses em que tudo era negro, dir-se-ia que o sino chorava, talvez porque deixaria de ter mais uma vida onde pertencer.

O sino tocou desta vez quatro vezes. Ela levantou-se, pegou nas malas e fechou a porta devagar. Tinha de ir, mas ficaria sempre, mesmo a pensar que detestava ficar.

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