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Fashion in the bag

Fashion in the bag

06
Mar17

Frascos sem tampa

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(imagem tirada da net)

A avó pegou no frasco vazio do doce, que estava em cima do armário da cozinha, e fazendo um sorriso maroto quase o enfiou no balde do lixo que estava perto da porta. O coração dela tremeu e as lágrimas quase  a visitaram, mas a avó virou-se e entregou-lhe o frasco. - Um frasco mágico e sem tampa, disse. Ela abriu muito osolhos e presenteou a avó comum belo sorriso.

Levantou-se, com um saltinho, e saiu para o alpendre batendo devagar, com a porta.

Não sabia explicar porquê, mas gostava de frascos desde que se conhecia. Neles guardava tanta coisa, mesmo coisas que não existiam. Muitas vezes, quando lhe perguntavam, dizia que os frascos serviam para capturar pedacinhos de passado porque o futuro,  esse era esguio como uma enguia e nunca conseguia tê-lo.

Mas tinha os sonhos de futuro, aqueles que lhe permitiam ver estrelas nos frascos e vento a dançar por entre as paredes de vidro.

Cada frasco era especial, porque cada um deles guardava cheiros, sons e sabores. Neles havia cores, havia movimento, mas também existia vazio e silêncio.  Alguns estavam tão cheios que ela tinha dificuldade em os manter quietos, outros estavam quietos demais e por muito que os abanasse dali apenas recebia quietude.

Todos os frascos estavam tapados e lá dentro tudo vivia numa espécie de prisão, mas o frasco de hoje não tinha tampa e ela percebeu que tudo o que lá colocasse ficaria sempre solto. Ao início preocupou-se; franziu o sobrolho e pôs- se a mirar o frasco, uma e outra vez. Lembrou-se das palavras (da avó) e percebeu que os frascos mágicos não podem ter tampa, nem os sonhos podem ficar fechados. Procurou todos os os outros frascos e uma a uma todas as tampas foram atiradas para longe fazendo um som estridente e metálico quando tocavam no chão.  As fechaduras estavam quebradas...

 

 

23
Jan17

Os botões e os sonhos

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Acordava cedo, por vezes ainda com a lua como companheira. A mãe preparava-lhe o pequeno almoço e aquecia-se no falecimento dos paus que crepitavam entusiasticamente. Depois era  a caminhada para a escola, pelas ruas empedradas e vestidas de cinzento.

Quase sempre encontrava amigos pelas ruas, porque as calçadas eram completas por gentes e animais.

Mas o que guardava mais, desses dias, era quando a escola acabava e ela corria para a loja do Sr. Fernando. Todos os dias havia coisas para comprar e quando não havia a mãe inventava a falta de um quilo de farinha ou de arroz só para que ela pudesse ir lá, porque sabia que era o que ela mais gostava. A loja tinha tudo, mas literalmente tudo. Desde as coisas mais básicas de comida, ao bacalhau, ao enchido, a botas, a porcelanas, a livros, a ferramentas e imagine-se até, caixões e petróleo. Naquele tempo ir à loja do sr. Fernando era como ir a um centro comercial, mas com um bónus: cada vez que via crianças; o Sr. Fernando, oferecia, sempre, uma pastilha ou um rebuçado. Escusado será dizer que a loja estava sempre cheia de crianças, que por vezes iam lá várias vezes não fossem os rebuçados acabar e eles ficarem sem nada. Para ela, para além dos rebuçados estavam os livros que, mesmo sem os comprar, conhecia de trás para a frente.

Ficava no cantinho, pegava em vários, a fazer de conta que a decisão da escolha era muito difícil e ia lendo o que por ali encontrava. No final ganhava sempre o quilo da farinha e do arroz e era esse que a acompanhava até casa. Um dia a mãe precisou de botões e ela prontamente se ofereceu para ir à loja do Sr. Fernando, descobriu nesse dia que a loja tinha um sótão e que, para além de tudo o que lá se vendia ainda tinha uma espécie de antiquário que habitava nesse sótão.

Teve dificuldade em escolher os botões, porque havia tantos e tão bonitos que pediu à Josefina(funcionária da loja) que a deixasse ficar ali um bocado para que pudesse escolher melhor. Nesse dia viveu histórias antigas contadas pelos vestidos pendurados nos armários, conheceu outros países nos mapas que estavam enrolados num canto sombrio, descobriu que podia ser quem quisesse, desde que sonhasse. A caixinha de costura, da mãe, passou a estar repleta de botões e durante muito tempo encontravam-se botões por toda a casa. 

 

 

 

 

 

17
Jan17

um sonho...

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Nunca tivera tempo de ser criança e quando lhe falavam nisso nem sabia bem dizer se ela algum dia tinha sido uma criança. Sentia que tinha sido sempre como era hoje, adulta e sem sonhos. Bem na realidade tinha apenas um: ver o mar.

Um dia o tio "Chico", que tinha estado em Lisboa, tinha-lhe contado que o mar era imenso, azul, com grandes ondas e que era impossível não passar horas e horas a olhar aquele movimento de embalava.

Tinha sido o único brinquedo que tivera(e que o tio lhe ofrecera) e o único sonho. Brincava com pedras e imaginava que era o mar com as suas ondas, olhava prados verdes e imaginava a imensidão da água e depois, pensava sempre, que um dia o iria ver, de verdade. Os anos passaram, Filomena tinha três filhos e nunca tinha brincado com eles porque ela não sabia brincar. Trabalhava de sol a sol, no campo, e depois tinha a casa para tratar. As crianças acompanhavam-na  nos campos e comiam todos juntos à beira de uma ribeira. Casara cedo, engravidara de seguida, e tudo era tão natural que nem nunca pensara que podia ser de outra maneira. Os filhos foram crescendo e foram-se embora, ela ficou sozinha com as pernas cada vez mais cansadas. -Já nem as pernas me ajudam, dizia.

Um dia, daqueles dias em que o Sol aparece cedo, o filho João chegou de carro e pediu-lhe que juntasse uma  muda de roupa e o acompanhasse. Teve medo, mas era o filho e não podia dizer-lhe que não. Entrou no carro com as pernas a tremer, nunca tinha visto nada assim. Viu tantas coisas que nem conseguia pensar, sucediam-se imagens e ela respirava a custo. O filho parou o carro e ela soube, mesmo sem lhe dizerem, que estava em frente ao mar. Desde esse dia nunca mais falou, a emoção de ter realizado o seu sonho e ter encontrado o seu único brinquedo, levou-lhe as palavras. Nunca mais ela conseguiu que as palavras fossem mais, ou significassem tanto como o que tinha sentido, naquele dia. O mar nunca mais a abandonou e ela sentia, todos os dias, uma felicidade imensa porque afinal, aquele, tinha sido sempre o seu sonho.

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