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Fashion in the bag

Fashion in the bag

31
Mai17

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(imagem retirada da net)

 

 

Sentou-se com esforço na sala de espera, onde uma dúzia de pessoas aguardava. Percebeu no momento em que olhou para os pés e viu uns sapatos quase novos (apesar da idade que tinham) que tinha passado os últimos anos à espera.

Não sabia bem o que esperava, mas sabia que esperava. Levantou os olhos e encantou-se com uma pena de pássaro que dançava contra o vidro da janela. Lembrou-se dos tempos de menina, na aldeia, em que conhecia de olhos fechados todos os pássaros e os seus nomes. Ouviu-se a sorrir e a correr para ver em que árvore eles iam pousar.

 Nessa altura não havia esperas porque havia tanto para saber e para descobrir que esperar era matar o conhecimento. Mas o conhecimento nunca cessa, por isso porquê esperar ao invés de descobrir, pensou. Alguém pronunciava nomes, apenas nomes e ela continuava a admirar a dança da pena, que nesta altura lhe parecia de pardal. Mexeu-se na cadeira, cansou-se de esperar.

Sem saber a razão encaminhou-se para a rua e colocou a mão na janela. A pequena pena descansou na sua mão.

Tinha de descobrir a que pássaro pertencia. Era urgente voltar a ler os seus livros, deixar a espera e entregar todas as penas ao bailado dos vidros.

20
Jan17

A caminho do calor...

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A estrada era longa, mas sem curvas. Na rádio tocava "Clair de la Lune" e ele olhava o traçado branco e regular. Estava de volta, pensava, porém sentia-se agora, mais longe, porque estava mais perto. O frio gelara as pequenas poças de água que, aqui e ali apareciam, e quando tocados pelo sol criavam pequenos arco-íris.

Na berma da estrada viu um homem franzino, velho; muito velho, carregando nas costas um pesado amontoado de paus que o faziam vergar. Na cabeça uma pequena boina preta tapava-lhe uma parte da testa.

Passou por ele, mas a imagem era demasiado forte, aquela visão lembrava-o do pai, do medo que o pai tinha do frio. Talvez devido à infância pobre e despida de calor, o pai temia o frio. Um dia, quando estavam sentados; à lareira, em pequenas cadeiras de palha, o pai fez-lhe um pedido: - Nunca deixes a tua mãe passar frio. Essa frase nunca o deixou, como uma lapa presa na rocha.  Todos os anos, mesmo longe, tratava para que na casa da mãe nunca faltasse calor.

Mas agora aquela imagem do homem na berma da estrada doera-lhe e não conseguiu continuar. Parou o carro, virou para trás, os pneus chiaram no alcatrão e passado pouco tempo estava lado a lado com o pequeno homem. Sem dizer uma palavra tirou-lhe o molho de paus das costas, abriu a porta da mala e colocou-o lá dentro. O homem, de olhos lacrimejantes, nada disse e limitou-se a entrar para onde ele o guiou. Passado algum tempo pediu-lhe para parar e ele tirou os paus e deixou-lhos num pequeno quintal, perto de casa. O homem velho abraçou-o e chorou. A partir dali todos os anos ele pedia para entregarem, naquele quintal, uma boa porção de lenha e quando o fazia sentia aquele abraço e o sorriso do pai a tocar-lhe no recanto mais fundo de si.

 

17
Jan17

um sonho...

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Nunca tivera tempo de ser criança e quando lhe falavam nisso nem sabia bem dizer se ela algum dia tinha sido uma criança. Sentia que tinha sido sempre como era hoje, adulta e sem sonhos. Bem na realidade tinha apenas um: ver o mar.

Um dia o tio "Chico", que tinha estado em Lisboa, tinha-lhe contado que o mar era imenso, azul, com grandes ondas e que era impossível não passar horas e horas a olhar aquele movimento de embalava.

Tinha sido o único brinquedo que tivera(e que o tio lhe ofrecera) e o único sonho. Brincava com pedras e imaginava que era o mar com as suas ondas, olhava prados verdes e imaginava a imensidão da água e depois, pensava sempre, que um dia o iria ver, de verdade. Os anos passaram, Filomena tinha três filhos e nunca tinha brincado com eles porque ela não sabia brincar. Trabalhava de sol a sol, no campo, e depois tinha a casa para tratar. As crianças acompanhavam-na  nos campos e comiam todos juntos à beira de uma ribeira. Casara cedo, engravidara de seguida, e tudo era tão natural que nem nunca pensara que podia ser de outra maneira. Os filhos foram crescendo e foram-se embora, ela ficou sozinha com as pernas cada vez mais cansadas. -Já nem as pernas me ajudam, dizia.

Um dia, daqueles dias em que o Sol aparece cedo, o filho João chegou de carro e pediu-lhe que juntasse uma  muda de roupa e o acompanhasse. Teve medo, mas era o filho e não podia dizer-lhe que não. Entrou no carro com as pernas a tremer, nunca tinha visto nada assim. Viu tantas coisas que nem conseguia pensar, sucediam-se imagens e ela respirava a custo. O filho parou o carro e ela soube, mesmo sem lhe dizerem, que estava em frente ao mar. Desde esse dia nunca mais falou, a emoção de ter realizado o seu sonho e ter encontrado o seu único brinquedo, levou-lhe as palavras. Nunca mais ela conseguiu que as palavras fossem mais, ou significassem tanto como o que tinha sentido, naquele dia. O mar nunca mais a abandonou e ela sentia, todos os dias, uma felicidade imensa porque afinal, aquele, tinha sido sempre o seu sonho.

10
Out16

O mundo do outro lado do banco...

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The man of soil. 1910. © August Sander

 

Arrastei os pés com dificuldade até ao banco pintado de verde. Os ossos envelhecidos por uma longa vida e por dias e dias de trabalho rangeram quando tentei sentar-me, mas fi-lo e senti-me bem com isso, um misto de independência e de auto-convencimento de que afinal ainda sou capaz, que ainda conservo a independência e a lucidez que sempre tive.

- Nada mudou, sussurro para mim.

No fundo sei, sabemos sempre, que não é assim e que cada dia que passa tudo muda e nunca sabemos bem do que somos, ou não somos, capazes. 

Diante de mim uma moça jovem;  com cabelos ruivos e olhos azuis sorria para um bebé, que tinha no colo. O quadro era surpreendente, não pela ternura presente à volta deles, mas porque eu me senti muito perto deles, como se eu fizesse parte daquele mundo que estava do outro lado do banco. Há sempre outros mundos do outro lado daquele em que estamos e nem sempre conseguimos vê-los, mas aquele eu via claramente, naquele eu estava. Passei tempo a olha-los, talvez os olhasse desde sempre...

Eu e as dores que me percorriam ficamos todos neste acompanhamento silencioso e presente. Senti fome, não tinha nada que pudesse comer,  além disso o que comia, fazia-me mal. Deixei-me estar. Não sei precisar o tempo que estive, porque na minha idade não há minutos, nem horas, existe apenas um semi- tempo que se esvai, indissociável com a vida. O fim da tarde fazia-se anunciar com a quebra de luz,  eu já não me mexia, eles também não. Estávamos unidos, por um fio invisível, que jamais se quebraria. Eles eram meus, como sangue e ar e eu era deles, da mesma forma. Quando me encontraram; no banco, tinha, no meu colo, uma pequena imagem de uma moça jovem e bonita de olhos azuis, com um bebé ao colo. Um mundo do outro lado do banco que era tanto o meu mundo....

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